quinta-feira, 20 de junho de 2024

FABLAB 2050 - O Jogo Sério para Imaginar Futuros

  O FAB2050 é um serious game, jogo criado para outros objetivos para além do entretenimento, cujo objetivo consiste em gerar visões colaborativas do futuro. Foi um jogo sério criado por Micael Sousa para a PlanAPP - Centro de Competências da Administração Pública, no âmbito do projeto LAB2050 Trata-se de um jogo analógico, incentivando e beneficiando das interações presenciais entre utilizadores. A implementação analógica permite a sua fácil replicação a baixos custos, bastando imprimir os materiais e treinar as equipas de facilitadores (duas horas aproximadamente), seguindo o manual de apoio e guia de facilitadores. Não requer qualquer tipo de hardware ou software, apenas uma sala de trabalho de grupo.

Sessão de testes no Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto 

 Trata-se de um jogo colaborativo em que os utilizadores cooperam para atingir e definir detalhadamente a sua visão coletiva, passando por etapas de interação com diferentes grupos e melhoria contínua das visões. Pode ser classificado como um jogo criativo, utilizando cartas com ícones e símbolos geométricos transparentes para estimular a imaginação dos participantes, ajudando a criar visões gráficas. No entanto, baseia-se num processo de incentivo criativo, de divergência e convergência das ideias e contributos, progredindo para um refinamento das visões e suas ideias associadas que são registadas em tabelas criadas para o efeito. As interações entre grupos fomentam a cocriação e a melhoria coletiva das visões, conceitos associados e potenciais propostas. Detém um forte carga reflexiva, analítica e de tomada de decisão à medida que as visão são construídas e debatidas.

Apesar de deter elementos clássicos de jogos, que servem como estimulantes, quebra-gelo e métodos de envolvimento dos participantes, trata-se de um processo construído para a recolha de dados sobre as visões, enquadráveis no tema a definir para cada sessão. Este serious game pode ser adaptado a qualquer tema ou para benefício interno de uma instituição, tendo sido aplicado pelo criador em várias sessões distintas com sucesso. 

Os documentos que fazem parte Kit FABLAB 2050 - O Jogo Sério:

Guia do jogo “FAB 2050”

Guia para facilitadores do jogo “FAB 2050”

Baralho de ícones e formas para jogo “FAB 2050”

Baralhos individuais para jogo “FAB 2050”

Baralhos individuais vazios para jogo “FAB 2050”

Quadro de visão para jogo “FAB 2050”

terça-feira, 8 de junho de 2021

Uma carta para mim próprio em 2019 ou como os Jogos de Tabuleiro me marcaram


Mais fotografias em: Micael Sousa (@micaelssousa) • fotos e vídeos do Instagram

Olá Nuno, 

Daqui é o Nuno de 2021. Chegaste a casa com o teu (meu) filho e ele aprendeu a jogar Magic por acaso em casa de um amigo. Tu já viste este jogo e tens um baralho algures num armário. 

Sim, o armário que tem o Party Co, o Monopólio, o Xadrez, o Uno, o Scrabble. 

São jogos que tens parados não é? São sempre a mesma coisa (ok menos o Xadrez). 

E se eu te disser que desde que jogaste Catan em 2001, muito mudou?

Posso dizer-te que somos a mesma pessoa mas ao mesmo tempo somos diferentes. 

Na tua vida frenética, estás a tentar encontrar um hobby que te acalme mas desafie ao teu ritmo. 

Estás à procura de algo que possas ter em comum com o teu filho. Estás à procura de uma distração construtiva. 

Bem-vindo ao mundo dos Jogos de Tabuleiro. Nos próximos dois anos vais viver uma grande aventura, desculpa, muitas aventuras. Deixa-me ajudar-te

Vais começar com jogos mais simples, rápidos, tu adoras jogos de cartas. Além do Magic (que não é assim tão simples) vais começar na construção de decks: Star Realms, Dominion. 

Vais gostar de alguns “Push your Luck” também jogos pequenos como o Port Royal ou o Oh My Goods. Vais aperceber-te que as cartas podem ter muitas funções, e vais gostar disso. 

Vais conhecer os dados como nunca conheceste, em que ser o maior resultado não significa ser melhor: Castles of Burgundy, Grand Austria Hotel, La Granja e o controverso Marco Polo.

Vais começar a decidir como alocar recursos com a beleza do Everdell, a dureza de um Agrícola, ou a simplicidade de um Walnut Grove

E tu, que adoravas o Civilization no teu computador, vais apreciar o Nations, e vais demorar muito tempo a jogar o Through the Ages. Vale a pena.

Vais saber que nem sempre há um vencedor e um perdedor. Há jogos cooperativos: O Hanabi, o Magic Maze, A tripulação ou o Marvel Card Game. Todos podem perder, mas a sensação de ganhar como um todo é fenomenal. 

Há artes magistrais, que te transportam para o tabuleiro, como o já mencionado Everdell ou o Ruins of Arnak, ou mesmo o Marco Polo. 

Vais ficar parado a decidir o que fazer num Ora et Labora. Só tem 41 edifícios mas tem tanto para decidir. 

Vais rir-te a juntar fações como os Zombies e os Piratas no Smashup, ou vais adormecer a ler as regras do Terra Mystica. 

Vais aprender regras num dia que não achavas que fosses conseguir. Vais falar de forma próxima com desconhecidos, vais ganhar e vais perder por poucos. Vais mostrar novos mundos ao teu filho, vais ficar a olhar para ele a raciocinar em voz alta. 

Eu sei que ao dizer estes nomes, podes não sentir nada por agora, mas vais sentir. Desculpa-me.

Vais ver vídeos de outras pessoas que partilham a paixão por este mundo e que, de forma altruísta, o fazem muito bem. Vais fazê-lo depois de dias difíceis e vão ajudar-te a “desligar”.

Vais ter respostas dos autores dos jogos às tuas dúvidas, vais falar com pessoas do outro lado do mundo. 

Vais arrumar os componentes ordenadamente, tu que és um desarrumado. 

Vais ficar a olhar para as caixas, vais chegar às lojas ou Associações e olhar para os armários como olhas para os teus amados livros.

Aproveita a viagem. Cada momento. Cá estarei para te receber, não no fim mas em mais uma etapa.


autor: Nuno Seleiro

quarta-feira, 17 de março de 2021

Três anos a arriscar o “cú” no Youtube

Passaram 3 anos a correr, como quem sai disparado para entrar numa casa de banho. E quem mais sofreu foi aqui este espaço, tais eram outras aflições. Quase todo o tempo disponível que tinha para criar conteúdos foi sugado pelo formato vídeo. Sou youtuber há 3 anos! Parece estranho, mas é verdade. Podem ver aqui, é mesmo um facto que consta dos anais digitais: www.youtube.com/c/jogosnotabuleiro

Eu, um gajo até tímido um youtuber? Um gajo que e atrapalhava todo a falar em público e em dizer mais que três palavras seguidas! Se calhar foi por isso mesmo que a coisa me tem motivado. Meter-me a produzir conteúdos vídeo foi como atirar-me para uma tempestade somente com uma boia. Atirar-me sem pensar nos riscos efetivos.

O perigo era constante, mas aprendi a nadar à força. Aprendi a nadar e a digerir. Aliás, o perigo é permanente, porque é perigoso falar em total liberdade quando se usa de alguns estilismos. Nesta ditadura do politicamente correto e da ânsia do cancelamento instantâneo só quem não tem cú é que não tem medo. E eu tenho um, como a esmagadora maioria de quem vai obrando por aí. Se calhar não conhecem esta expressão do “cú”, mas pronto, é pelo uma expressão conhecida aqui da minha zona. Não que seja do “cú”, mas conhecida na zona onde vivo. E com isto já arrisquei bastante o meu “cú”, ainda por cima eu que era tão ciente dele. Que seja uma ode à liberdade de dizer repetidamente “cú”, com tudo o que isso acarreta e liberta de simbolismo. 

Não sei se me fiquei apenas pela natação de sobrevivência neste mundo de constantes vagas de vídeo. Também mergulhei, para o bem e para o mal. Foi aprender do zero. Tentar comunicar melhor, ou comunicar efetivamente e de facto. Tentar passar as ideias para o concreto. Errar e aprender, tal como nos jogos, embora a exposição e o perigo existam. Lá está, o “cú” está sempre em risco. E por vezes, um conteúdo deslocado, mal digerido pode cheirar muito mal. É preciso engolir alguns orgulhos e ter capacidade de digerir certas criticas, mas depois, com a devida preparação, tudo acaba por sair, ficando somente os nutritivos ensinamentos daa experiência interativa.

Mas foi só isso que ganhei? Uma melhor capacidade de desencaixe e escoamento de ideias? Não, ganhei rede social real. Conheci imensas pessoas, outros “cús” bem mais formosos que o meu. Foi uma forma de poder participar em múltiplos projetos relacionados com jogos, de meter o “cú” a novos trabalhos. Hoje estou ligado a alguns projetos de "serious games", e acredito que todos os conteúdos que criei – especialmente os vídeos – foram uteis nesse caminho das pedras, quiçá das pedras dos rins, daquelas que doem a sair. 

Falar de “cús” e seus temores é uma coisa séria. Falar de jogos também, embora mais incerto. Tudo é sério e não sério, mas nem tudo é divertido. Até porque “cús” há muitos e cada um tem o seu poder de encaixe. Consciente disso tentarei continuar a obrar, mas sem mostrar tudo, pois há certas coisas que nem eu quero ouvir falar, quanto mais ver. 

autor: Micael Sousa


sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Efeitos parasitários nos jogos de tabuleiro de massas e de hobby

Este ano que terminou foi um ano atípico, todos sabemos. Foi igualmente estranho para o mundo dos jogos de tabuleiro. Devido às restrições algumas pessoas passaram a jogar mais e outras muito menos. Alguns dos ditos “gamers” de hobby tiveram de reinventar hábitos. Os encontros públicos deixaram de poder acontecer tal como de hábito. Muitos de nós tivemos de jogar mais em modo solo – no meu caso era um modo que desprezava completamente. Outros dedicaram-se às plataformas online de emulação de jogos de tabuleiro – confesso que estas não me seduziram. Alguns conseguiram jogar mais em família, com as suas respetivas companheiras e companheiros, inventando também formas de jogar em casa em encontros mais restritos, alguns com máscaras e gel desinfetante à mão. 

Surgiram notícias de que, mesmo entre os jogadores casuais ou pessoas que não jogavam há muito tempo, houve uma procura maior por jogos de tabuleiro. Foi uma resposta à necessidade de encontrar atividades alternativas para toda a família ou para fazer com quem partilhasse a mesma casa ou convivesse num círculo social mais restrito. Mas como, muito provavelmente, estas pessoas apenas acederam aos jogos que já conheciam da infância. É normal, vamos sempre seguir ou comprar o conhecemos, especialmente porque entra em jogo também o efeito de nostalgia. Dificilmente alguém arrisca gastar dezenas de euros numa coisa que não conhece e muito menos numa que exige um processo de aprendizagem considerável. Vivemos na era do imediato, quer queríamos quer não. 



O que me pareceu ser realmente desconfortável neste fenómeno foi o modo como a coisa foi publicitada ou manipulada. Estava já no ar, mesmo antes do Covid-19, a noção de que havia um ressurgimento de interesse pelos jogos de tabuleiro. Mas, muitas vezes, a mensagem passava para o grande público como um efeito de nostalgia, do voltar aos jogos do passado. Muitas pessoas podem ter voltado aos jogos de infância, mas sabemos que não são esses jogos que alimentam as feiras internacionais, os conteúdos criados sobre o hobby e até novas profissões e formas de usar os jogos em múltiplos contextos. Parece-me que as empresas que produzem e distribuem os jogos do mercado de massas, aqueles da nossa infância que todas as pessoas conhecem, mas agora replicados em formas supostamente mais moderna mas que no fundo são a mesma coisa há décadas, se aproveitaram do fenómeno de crescimento dos jogos de hobby para insistir com a venda dos jogos do costume.

Isto pode ter efeitos positivos se as pessoas que voltam aos jogos antigos se aperceberem que existem outros. Mas se quem voltar a estes jogos ficar só por aí, pode ficar com uma ideia muito distorcida sobre o que tem sido o ressurgimento do fascínio de jogar jogos analógicos e sobre as inovações associadas ao desenvolvimento destes produtos criativos de autor. Pensar que o hobby dos jogos de tabuleiro se resume a jogar os jogos de infância é uma visão perigosamente fácil de se implementar. Vai surgir frustração e são imensos potenciais jogadores que perdemos. Estas pessoas podem ficar com a ideia que todos os jogos de tabuleiro consistem em lançar dados para andar numa barra de progressão ou às voltas, que se trata apenas de mecânicas alectórias que determinam os resultados, as casas onde calhamos e as cartas disponíveis para jogar. Casos em que é o jogo que nos joga e não o inverso. Podem pensar que são infantis ou que têm de perder uma noite inteira com um jogo do qual podem ser eliminados logo no início. Podem pensar que têm de ler uma enciclopédia antes de os poder jogar, que vão estão num duelo a ter de pensar 50 jogadas à frente ou a lançar um dado que determina o desfecho de uma batalha sem qualquer outro efeito que o possa influenciar. Os jogos de tabuleiro modernos podem ter isto, mas normalmente têm muito mais ou implementam novas formas de gerar experiências que nos marcam. 

Já se percebeu que receio este efeito parasitário dos jogos do mercado de massas, mas as editoras e os jogadores dos jogos de hobby têm alguma responsabilidade também nisto? Até que ponto os jogos de hobby não se têm colado também a estes jogos que uma grande maioria de nós despreza? Ficam as dúvidas no ar… quem sabe até surgir uma vacina que nos salve o hobby. 


autor: Micael Sousa

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Como o GEST levou os jogos de tabuleiro modernos ao Hospital Dona Estefânia: Uma experiência de voluntariado na área dos jogos de mesa

Contar a história do projecto Jogos ao Serviço necessita de algum contexto, principalmente no que toca ao grupo que começou o projecto, o GEST.

O GEST, Grupo de Estratégia, Simulação e Táctica é o grupo de jogos de mesa, tabuleiro e miniaturas do Instituto Superior Técnico, aliás funciona como secção autónoma da Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, sendo não só uma das mais antigas secções autónomas da AEIST, como um dos mais antigos grupos de jogos de Lisboa.


A dinâmica do GEST foi sempre variando ao longo dos anos, entre períodos de quase inactividade, até à organização bem sucedida de convenções de cultura popular de média dimensão. Na altura em que o projecto Jogos ao Serviço começou, o GEST tinha começado a organizar encontros de jogos de tabuleiro semanais no Técnico, com uma afluência regular média, chegando a encher duas salas, entre jogos de tabuleiro e RPGs. Na altura tentávamos descobrir novas formas de divulgar as actividades do GEST e o hobby dos jogos de mesa em geral. Foi então que, enquanto pensava sobre o assunto, me deparei com uma publicação no Facebook que assinalava uma data importante para a Operação Nariz Vermelho e a partir daí as ideias começaram a encaixar e a transformar-se num plano. Entrámos em contacto com o Hospital Pediátrico Dona Estefânia, por estar geograficamente próximo do Técnico, recordo-me especialmente do formulário de contacto ter uma extrema limitação de caracteres, foi um desafio explicar o que queríamos fazer em poucas palavras, mas pouco tempo depois tínhamos uma resposta interessada da parte do Gabinete de Comunicação do Hospital e a oportunidade de explicar o que queríamos fazer.  Nas comunicações e reuniões seguintes, a direção do GEST e o gabinete estabeleceram os objectivos da parceria. Iriamos uma vez por semana, à ala dos adolescentes do Hospital, ensinar e jogar jogos de tabuleiro modernos com os pacientes que estivessem presentes e interessados. Todo este trabalho foi feito em conjunto com o Tiago Serra, o Carlos Branco e mais tarde o Rafael Pereira, todos eles integrantes da direção do GEST. O Tiago Serra foi sempre o mais ambicioso nos jogos que propunha jogar nas sessões, o Rafael Pereira deu sempre uma dinâmica de ambição e tentativa de levar o projecto um pouco mais longe, o Carlos Branco teve sempre um enorme entusiasmo por levar o projecto adiante. Após alguma troca de ideias, chegámos ao nome "Jogos ao Serviço ", numa perspectiva quase religiosaa da palavra Serviço. 


As primeiras sessões foram bastante bem sucedidas. Houve adesão por parte de pacientes, visitantes e profissionais de saúde presentes. Ao longo dos meses seguintes fomos solidificando o projecto com orientação da direção do Gabinete de Comunicação e recrutando novos participantes. Foram muitos os jogos jogados e partilhados naquela ala, alguns deles das nossas coleções pessoais, outros, cedidos pela então Torre de Jogos, outros ainda da, na altura limitada, ludoteca do próprio GEST. Os critérios de escolha foram jogos curtos, fáceis de ensinar e preferencialmente que pudessem ser jogados por um mínimo de duas pessoas. Carcassone, Ticket to Ride, Ponte para El Dorado, Catan, Codenames, Trench, Abalone, Kamisado, Nutriventures , Saboteur, entre muitos outros. Destes, destaco o Carcassone, cuja simplicidade e versatilidade sempre foi uma mais valia neste contexto. 

O projecto foi um esforço colectivo e foi enquanto se manteve como tal foi bem sucedido. Os objectivos iniciais eram simples e directos e tínhamos os meios para os cumprir. Jogos, pessoas e tempo. Mais tarde começámos a recrutar mais voluntários e alguns deles garantiram várias sessões. O Jorge Rosa Alves, o Artur Alves, a Ana Miguens, a Carolina Pereira e a Cristina Alves foram incansáveis a aprender os jogos, a participar nas sessões e no cumprimento de todas as regras que o Hospital nos solicitava.

Durante as sessões interagimos sempre de forma construtiva com outros voluntários presentes no espaço e também com a professora que estava responsável pelo acompanhamento escolar dos pacientes de estadias mais longas. Muitas vezes, familiares e acompanhantes dos pacientes juntavam-se aos jogos e até algumas vezes, jogámos jogos propostos pelos presentes.

Ao longo do projecto levámos o hobby a dezenas, talvez centenas, de crianças de diferentes idades, origens, classes sociais e raças, providenciamos entretenimento com interactividade numa situação que para muitas destas crianças e adolescentes era crítica, mostrando a muitas dessas crianças, jogos que nunca tinham conhecido antes. 

O projecto acabou por terminar por um conjunto de diferentes razões. A mobilização dos voluntários não chegou ao ponto de dar ao projecto uma capacidade de continuar por si só. Na fase final, em grande parte por falha própria, já era um número reduzido de pessoas a garantir a maioria das sessões, o que não permitiu uma renovação geracional efectiva no projecto.

Ficou a experiência de ajudar aquelas crianças e adolescentes a ultrapassar um pouco melhor algumas das horas do seu internamento, a experiência de encetar uma colaboração institucional frutífera quase a custo zero e a oportunidade de, ao longo das nossas semanas de aulas e mais tarde, trabalho, termos algo que nos proporcionava uma enorme realização pessoal.


Autor: Saúl Pereira


quinta-feira, 30 de julho de 2020

O medo de ficar de fora nos Jogos de Tabuleiro

Como empresas que são, as editoras sabem explorar alguns dos nossos medos mais profundos. Um deles é o “medo de ficar de fora”, ou em inglês “Fear of Missing Out” (FOMO). Quando as editoras, especialmente as de maior dimensão e notoriedade, começaram a apostar fortemente em marketing este fenómeno cresceu. 


O Kickstarter (KS) ajudou ao processo, de uso de técnicas para nos cativar, oferecendo opções e produtos que dificilmente depois podemos adquirir. Temos os casos das edições de jogos que só passam pelo Kickstarter e os outros cuja edição (KS) é substancialmente diferente das versões que vão estar em loja, quer nos componentes quer em algumas adições e expansões que melhoram o jogo. Tudo isto parece ser feito para nos “obrigar” a comprar naquele momento, devido ao receio de estarmos a perder um produto único, que depois pode ficar mais caro ou totalmente indisponível. 

Já dei por mim a comprar com ânsia jogos que depois ficam parados na prateleira anos. Ao fenómeno do medo de ficar de fora junta-se o “colecionismo”. Reunir extensas coleções de jogos analógicos é uma tendência natural. Para muitos de nós fascina-nos a materialidade do jogo, e com isso vem o prazer de saber que os temos, mesmo que não os consigamos jogar. Trata-se do valor de posse, que pode ser um valor por si só suficiente para comprarmos um jogo. Por vezes coincide com o valor de jogar, outras vezes funciona como uma espécie de investimento. Há também quem guarde jogos para vender depois, especialmente quando os guardam intactos. 

Mas este investimento que refiro, na perspetiva do colecionar, prende-se mais com outro estado psicológico associado ao hobby dos jogos: o de ter na nossa coleção algo que pensamos que nos será útil no futuro. Entra novamente em jogo o medo de ficar de fora. Isto pode parecer absurdo, mas não é. Há aqui um equilibro que só se atinge com alguma maturidade e experiencia os jogos de hobby, embora dada a erros. Se já me arrependi de alguns jogos que comprei penso que me arrependi mais dos que não comprei e que hoje não consigo aceder. Se é verdade que um iniciante no hobby dos jogos de tabuleiro terá uma tendência para comprar tudo o que aparecer pela frente, pois tudo parece novo e fantástico, os jogadores mais experientes tendem a controlar esses impulsos. Existe muitos jogos bons a serem publicados todos os anos, mas há muitos que são “parecidos”. 

A vantagem de comprar alguns jogos mesmo que estejamos com dúvidas é que temos sempre aos nosso dispor um mercado de usados dinâmico, embora se perca algum dinheiro. Por isso, havendo dinheiro disponível, alguns jogos são realmente imperdíveis. Cada vez que me lembro de ter na mão a expansão “German Railroads” para o “Russian Railroads” e de não ter comprado pro achar que o podia fazer depois penso neste fenómeno. Hoje essa expansão está esgotadíssima e sem perspetivas de ser editada, com as cópias existentes a atingirem os 200€ no mercado de usados. Mesmo longe do Kickstarter, isto acontece em alguns jogos e nem precisam de ser muito antigos. Por serem objetos físicos a sua disponibilidade é sempre limitada, e não se “copiam” facilmente como os jogos digitais. Jogos como os da Splotter sofrem desse fenómeno, embora ai pareça ser algo mais intencional. Poucas edições, esgotar do stock novo instantaneamente e escalada de preços no mercado de usados. 

Com a experiência vamos desenvolvendo esta capacidade de avaliar que jogos devemos comprar e quais podemos passar. No entanto nada garante que percamos realmente boas oportunidades. O medo de estar de fora é permanente, mesmo para os mais experientes. 

autor: Micael Sousa

domingo, 14 de junho de 2020

Recomendações de podcasts sobre jogos de tabuleiro

Há cerca de um ano comecei a ouvir podcasts sobre jogos de tabuleiro. Até esse momento nunca tinha dado muita atenção a esse formato de conteúdo para abordar os jogos. Buscava, tendencialmente, recursos em formato de vídeo, pois parecia-me obvio que tinha de ver os jogos, os seus componentes e dinâmicas simuladas. 

No entanto, de todos os canais que seguia, com o tempo a informação começou a saber sempre ao mesmo, com os seus vídeos tutoriais, algumas análises que tendiam para a superficialidade, marcadamente anedóticas. De notar que uso aqui o termo anedótico sem conotação negativa, apenas como adjetivo de um conhecimento que tem valor, mas que não está sistematizado, ou pelo menos não sistematizado de uma forma que possamos usar diretamente para outros objetivos.

Por isso, assim quase sem planear, aproveitando as viagens que tinha de fazer de carro até Coimbra e a outros locais que me faziam gastar tempo considerável em viagem, em que a única opção é poder ouvir, comecei a tentar ouvir alguns podcasts. Experimentei vários e neste momento continuo a ouvir 4 deles sempre que posso, por razões diferentes. Vou apresentá-los de seguida por ordem de preferência pessoal. Vou citar também duas menções honrosas que me parecem interessantes, mas que ainda não ouvi vezes suficientes para poder ter opinião totalmente definida. Vou falar apenas de podcasts em inglês, pois ainda não comecei a explorar outros.

Menções que vale a pena ver também:
Ouvi apenas 2 ou 3 episódios destes dois podcasts. Pareceram-me interessantes nas abordagens, mas ainda não foi suficiente para os poder descrever. Apesar disso ficam aqui as ligações para poderem avaliar:
Rhado Talks Through
No Pun Included

Pode parecer estranho estar a referir este podcast tendo em conta que comecei por dizer que procurava informação sistematizada sobre jogos. Mas o Shut Up & Sit Down não é tão absurdo como parece, especialmente na versão podcast. Os autores tentam fundamentar as suas análises, mas sem deixarem de lado o humor. É algo difícil de conseguir, mas penso que eles conseguem. Têm-me sido imensamente úteis. Referem jogos que eu jamais iria considerar, como Party games, alguns amerigames cujas mecânicas são refrescantes e a tender para o hibridismo influenciado pelos eurogames. Também falam de eurogames de um ponto de vista critico, algo essencial para quem - como eu - está centrado nestes jogos. É imperativo ouvir o contraditório para apoiar a formulação de autocríticas. Ligação disponivel aqui.


Neste Podcast do conhecido projeto dedicado a jogos mais pesados, onde o vídeo também é o seu principal formato de publicação de conteúdo, surgem algumas preciosidades. Pensa a baixa produção do formato podcast, mas os poucos que fazem são bons. Ficamos a conhecer melhor o anfitrião do heavy Cardboard, o Edward, pois no seu podcast partilha muito dos seus gostos e preferências, especialmente quando faz os episódios sozinho. Para quem gosta de jogos mais pesados vai gostar de ouvir, pois nem sempre temos oportunidade de ver abordados em áudio os jogos mais complexos. Ligação disponível aqui.



Neste podcast temos 4 amigos que falam do hobby. Este podcast é uma expressão concreta do hobby, de como se formam amizades e podem ser levadas ao ponto de gerarem projetos com impacto. Aqui os 4 amigos, mas que muitas vezes são somente 3, ainda que recebem também visitas de outras pessoas que lhes são próximas, falam dos jogos que jogam, das situações que acontecem ao jogar, com um foco no meta jogo. Apesar de serem americanos, falam muito de eurogames também, o que torna os conteúdos mais ricos. Um podcast cheio de humor intrínseco, em que parece que estão a falar connosco diretamente. Ligação disponível aqui.



Ludology
Este podcast é uma obra prima. Um produto precioso, que poderia muito bem fazer parte do programa de uma disciplina de game design no ensino superior. Cada episódio é uma lição. Aprendi imenso a ouvir os anfitriões e seus multiplos convidados. É uma fonte de conhecimento que complementa bibliografia dos estudos dos jogos. Sem dúvida para mim o melhor podcast de todos, aquele que nunca posso perder, pois é essencial para sentir que estou continuamente a aprender. Não será um poscast para todos os jogadores de hobby, pois vai mundo fundo nas análises dos jogos, sem se forcar em jogos demasiado concretos. Este podcast não serve propriamente para conhecer novos jogos ou estudar um jogo em particular. Nele fazem-se puros exercícios que tentam a desejada e rara sistematização, numa área onde é tão difícil fugir ao conhecimento anedótico. Ligação disponível aqui.



Autor Micael Sousa

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Jogos de tabuleiro para desenvolver competências nos profissionais de saúde

Todas as civilizações têm os seus jogos e desde tenra idade que uma imensidão de jogos nos fascinam e desempenham um papel importantíssimo na nossa aprendizagem e desenvolvimento. Continuamos a jogar pela vida fora, mas a perceção tende a mudar. Apesar disso o nosso cérebro mantém-se plástico ao longo da vida, pelo que nunca deixamos de aprender, mesmo em idades mais avançadas.
Os jogos geram experiências e estéticas que nos fascinam e emocionam. Transportam-nos para espaços imaginados onde tudo pode ser experimentado e testado. Logo os jogos são arenas de teste, mas diferentes das brincadeiras, pois essas não têm de ser estruturadas, não de ter regras definidas nem objetivos para alcançar. 



Todas estas características dos jogos permitem que sejam utilizados, mantendo a diversão, em contextos sérios. Através deles podemos treinar competências, melhorar as que temos e desenvolver até novas, num ambiente seguro, pois nos jogos a perda não tem consequências negativas. Nos jogos aprendemos perdendo simbolicamente, aprendemos errando e testando novas formas de abordar os desafios que nos são apresentados. 

Mas existem muitos jogos, de todos os tipos e com características que se adequam mais a certos contextos de aprendizagem e treino que a outros. O caso dos jogos analógicos, na sua maioria jogos de tabuleiro, porque se jogam sobre uma superfície, existem vantagens únicas. São naturalmente mais colaborativos, pois necessitam do envolvimento ativo dos jogadores para funcionarem. São mais transparentes nas suas mecânicas, permitindo adaptações com facilidade. Ao serem assim flexíveis, são excelentes para aplicar a contextos e objetivos particulares. Por serem necessariamente presenciais, vivendo da materialidade dos componentes e da riqueza da interação humana, são perfeitos para desenvolver competências sociais, muitas delas associadas ao que conhecemos por soft skills, as competências ditas suaves, mas que são essenciais. 



Por isso estamos a propor um projeto inovador, nascido em Leiria, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Leiria (ESSLEI-IPLEIRIA). Uma ideia que consiste em aproveitar os novos designs de jogos de tabuleiro modernos, aqueles que os Boardgamers de Leiria da associação Asteriscos têm utilizado nos seus múltiplos projetos educativos e sociais. Com base nisso estive a ajudar a Marlene Rosa, investigadora e professora da ESSLEI-IPLEIRIA a criar um projeto para candidatarmos às Academias de Conhecimento da Gulbenkian. Nesse projeto propomos desenvolver sessões de treino de soft skills para que os futuros profissionais de saúde possam estar ainda mais preparados para lidar com as experiências e interações humanas em contexto de trabalho. Para isso queremos ajudar a desenvolver a comunicação motivacional, escuta ativa, gestão de expetativas, gestão de conflitos e tomada de decisão, tal como o estímulo criativo, entre outras. O projecto chama-se Gym2beKind, pois no fundo pretende criar um ginásio para treinar para a simpatia e humanização através da diversão. 

Para conhecer, votar e partilhar este projecto basta seguir este link: https://wn.nr/xsHRQt

Texto publicado no Diário de Leiria

Autor: Micael Sousa

domingo, 3 de maio de 2020

Coisas que podemos saber cientificamente sobre jogos de tabuleiro

Jogos de tabuleiro há muitos, aliás, existem jogos desde que somos humanidade. Mas nem todos os jogos são iguais embora usemos termos que possam levar os mais distraídos a juntar tudo no mesmo pacote, ou na mesma gaveta. Por outro lado, numa ânsia por tentar especificar o objeto do nosso hobby, também podemos criar tantas caixas semânticas para colocar os nossos jogos que depois nem nós nos entendemos. 

#boardgamephotocreative | disponível em: Instagram.com/micaelssousa
Falei do nosso hobby propositadamente, pois é assim que os jogos de tabuleiro que geram comunidades de gosto se devem definir. Isso não significa que os jogos do mercado de massas não possam gerar hobbies, porque sabe-se que há quem colecione, por exemplo, monopólios e riscos. Mas o termo hobby usa-se porque houve jogos inicialmente criados como hobby, paralelamente às grandes empresas que já os faziam como produto de entretenimento de massas. Como em qualquer hobby ou atividade de nicho, tendem a surgir formas especializadas de conhecimento e cultura. Foi isso que aconteceu com os jogos, originando novos designs, tipologias e, no final, produtos que criaram um mercado próprio e que agora se torna mais acessível e aberto. São estes os jogos de hobby, aqueles que chamamos jogos de tabuleiro modernos, porque dá jeito distingui-los semanticamente dos restantes jogos que, com alguma sobresseria apelidamos de “não-modernos”. Isto dos hobbies gera sempre elites e pedantismos – é normal e não é por mal, é cultura. De uma forma mais rigorosa, estes jogos de hobby, para abarcar toda a diversidade deveriam ser definidos como jogos analógicos, tal como fazem os editores da Analog Game Studies. Acaba por ser mais correto, porque conseguimos assim incluir, sem dúvidas, os jogos narrativos, de miniaturas, colecionáveis e géneros híbridos. Se pensarmos nos jogos de tabuleiro, nas classificações de jogos tradicionais ou clássicos também surgem incertezas. Estamos a falar dos jogos imemoriais como as mancalas, damas e xadrez ou dos jogos já com dezenas de anos como monopólio e jogo da vida? Proponho que os tradicionais sejam os primeiros, incluindo neles jogos populares e etnográficos, e os clássicos os monopólios e afins, que por sinal se encaixam também nos jogos do mercado de massas, em que se assumem mais as marcas das editoras que os autores. Depois então temos todos os outros, os jogos de hobby, aqueles onde o autor tem um destaque próprio e, habitualmente, tendem a demarcar-se pela originalidade das mecânicas e dinâmicas de jogo que proporcionam. Tentam inovar e direcionar para segmentos de jogadores específicos, os gamers se quisermos simplificar, embora isso também possa ser polémico. Dentro deste tio de jogos podemos especificar em wargames, jogos narrativos, simulação, colecionáveis, eurogames, ameritrash e uma infindável quantidade crescente de jogos híbridos que misturam traços dos vários subgéneros, apesar de todos os limites dúbios e altamente questionáveis. 

A comunidade de hobby tende a gerar e alimentar a sua cultura, a procurar e criar conhecimento, mas nem sempre da forma mais estruturada. De quem é a culpa? E haverá culpa sequer para atribuir? Será um problema? Sim e não, na minha opinião. Estas dúvidas geram discussões infinitas que fazem parte do fascínio da dimensão cultural dos hobbies, especialmente dos que estão vivos e em desenvolvimento. No entanto complica quem quer seguir por abordagens mais sistematizadas, agora que os jogos têm um renovado interesse por poderem ser utilizados em processos de gamificação e de serious games.

Quanto a culpas, bem… a academia tem uma parte da culpa. Existe alguma investigação sobre os jogos analógicos, embora a esmagadora maioria dos estudos dos jogos se foquem nos jogos digitais. Apesar disso existem artigos e publicações sobre os jogos de hobby, perdidas entre milhões de outros registos. Para os académicos, apesar de terem muito que desbravar, esse conhecimento pode ser acedido. No entanto, para todos os outros pode ser impraticável ler esses artigos e livros pagos, por vezes a peso de ouro. Enquanto académico, pelo menos nesta fase da minha vida, eu e todos os colegas somos impelidos a produzir “ciência”, mas a ditadura das indexações força-nos a publicar em certos sítios que não estão acessíveis aos grandes públicos. É, no mínimo, um paradoxo para a ciência na era da informação… Uma excepção a isto é a ETC Press, associada à Carnegie Mellon University que tem uma parte considerável dos seus livros técnicos e académicos sobre jogos disponíveis gratuiramente online aqui. 

Quando desafiei o Edgar a ajudar-me a fazer um artigo sobre jogos de tabuleiro não sabia bem onde me estava a meter – acho que nem ele. Foi uma procura árdua. Milhares de artigos, dezenas de livros e outros tipos de publicações com informações contraditórias. Uma necessidade imperiosa de estruturar tudo aquilo, recorrer às nossas redes de acesso ao conhecimento científico, num trabalho paralelo ao que estudamos habitualmente. Foi um esforço por construir algo que se parecesse com um artigo cientifico e lutar para que pudesse ser aceite numa conferência de jogos digitais, porque das outras simplesmente não há, ou quando há são inacessíveis ou não produzem o tipo de publicações que necessitamos para o currículo. Também foi surpreendente perceber que, apesar de algumas desconfianças, essas conferências aceitam conteúdos sobre jogos analógicos, pois há muito que os une nas abordagens sistémicas aos jogos digitais. O fruto desse trabalho está disponível aqui, mas, como é comum no atual estado da produção cientifica, não é gratuito. Ainda assim estão disponíveis as referências bibliográficas que podem ser já uma boa base para saber mais. Por isso, o que se pode fazer é continuar a partilhar esse e outros conhecimentos por outras vias, aqui no blogue, no canal de Youtube e noutras publicações de maior lastro, tal como os artigos que tenho conseguido fazer no P3 sobre jogos e tabuleiro.

Ainda assim vão existindo algumas fontes gratuitas que nos podem ajudar a consolidar e estruturar conhecimento sobre este tema dos jogos analógicos – ou simplesmente de tabuleiro ou de mesa. Remato aqui o texto com a recomendação do Analog Game Studies que já referi e do excelente podcast Ludology. Devorar e compreender estas duas criações fará de todos verdadeiros especialistas nesta área, mas desde que continuem a jogar também. 

Autor: Micael Sousa

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Serious games e mapas mentais #2

Há um jovem que me está constantemente a surpreender. Anda aqui um gajo distraido nos seus afazeres, pouco ou nada relevantes, e, de repente, recebe mais um mapa mental feito pelo Bruno Ribeiro. Afinal há pelo menos uma pessoa que vê os meus vídeos sobre serious games como tendo algum potencial e se dá ao trabalho de os analisar para tentar expremer alguma utilidade. O Bruno mandou-me então mais um dos seus mapas mentais a resumir o segundo vídeo da série dos "Jogos Sérios" que tenho andado a alimentar no canal de Youtube aqui do Jogos no Tabuleiro. 


Mesmo que não tenham a arte do Bruno, que consiste em desenhar, mas acima de tudo, em ordenar estas ideias para serem facilmente lidas em forma de resumo, experimentam esta técnica. No fundo são esquemas de resumo. No meu caso, apesar de ter sido eu a fazer os vídeos, muito de improviso e com apenas uma gravaçã, este recurso grafico é muito importante pare recordar o que partilhei e para auto-crítica. 

Em jeito aqui de resumo, sobre este segundo mapa mental: é preciso conhecer mutios jogos para tentar fazer uma sistematização das mecânicas e dos sistemas de jogo. Conhecendo isso e quais podem ajudar à implementação dos conteúdos poderemos então desenhar melhores jogos, especialmente jogos sérios (serious games). 

terça-feira, 24 de março de 2020

Viceroy: versão alternativa para jogar a solo

Há jogos de tabuleiro que têm versões para poder jogar em modo solitário, a solo como costumamos dizer. Mas algumas das versões a solo são muito fracas, em nada representando a dinâmica e sensações de jogo com múltiplos jogadores. Obviamente que não é fácil simular o comportamento dos jogadores, até porque o que mais se valoriza nos jogos analógicos é a interação com outros jogadores, especialmente nas reações humanas e até incertezas que daí resultam. Alguns jogos tentam simular isso com os baralhos de cartas chamados autómata e afins, mas, no fundo, nunca é a mesma coisa. São opções razoáveis quando não temos adversários, algo que ocorre nestes dias de pandemia global por causa do COVID-19. 

Um dos jogos que tentei jogar na versão solo e que me desagradou, por ser demasiado aleatório, numa forma que supostamente tenta replicar a sensação global do jogo com múltiplos jogadores foi o Viceroy. Sendo um jogo de construção de um puzzle com a hierarquia de cartas pareceu-me ser um bom caso de jogo para jogar de modo solitário, pois temos de tentar fazer o melhor possível com as cartas que temos, sendo diferente todos os jogos. Mas a versão solitária torna os leilões demasiado aleatórios, uma verdadeira lotaria que não me agrada ver num jogo de tabuleiro moderno. Por isso decidi criar uma versão alternativa sem essa aleatoriedade. Aqui fica a explicação de como se joga.
No jogo vamos somente usar 4 gemas de cada cor. Todas as outras são removidas do jogo. O jogador recebe na mesma 2 de cada no início da partida e descarta depois 2 dessas 8 à sua escolha. 
Usam-se as cartas de cor na fila de leilões, mas agora o jogador paga diretamente a cor associada à carta de personagem. 


Na segunda ronda as cartas que não foram compradas passam para a linha de cima, e de modo aleatório, sorteia-se uma gema de cada cor para colocar nas colunas com duas cartas. 


Assim, o jogador, a partir da segunda ronda terá sempre a opção de poder comprar uma carta por uma ficha ou 3 conjuntos de duas cartas por duas fichas de cores variadas. Habitualmente, uma das gemas vai ficar de fora dos custos adicionais, à exceção de quando, na ronda anterior, o jogador optou por não comprar carta de personagem. Por isso, pode também, como na versão original decidir não comprar cartas e recolher assim pelo menos 3 gemas de cor à escolha. 


Quando as cartas passam da linha de baixo para a linha de cima, caso ainda existirem cartas na linha superior, as de baixo substituem naturalmente as de cima. 


Com esta alternativa deixa de haver uma aleatoriedade que possa prejudicar o jogador sem qualquer justificação. Com apenas uma reserva de 4 gemas de cada cor há a necessidade de fazer uma gestão mais apertada das gemas. Assim fica o jogador tem mais controlo sobre o jogo e pode assim delinear com mais certeza estratégias e explorar múltiplas combinações, que, pela imprevisibilidade do modo como as cartas vão surgindo e os custos das cartas, têm garantia de replicabilidade.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pelo património e pelas lojas de jogos de Vincennes na zona de Paris

Vincennes é uma cidade de França, na contiguidade de Paris, tanto que praticamente não se distingue desta. O metro, na linha 1 (linha amarela) que atravessa o Louvre chega lá. Por isso dá para ter uma noção da sua centralidade. Vincennes é conhecida pelo seu bosque e jardim, onde existe um Zoo, mas mais famoso é o seu castelo – um verdadeiro conjunto militar de várias épocas históricas. Nele viveram muitos dos reis de frança, especialmente no período medieval. O castelo ainda conserva, dessa época medieval, o núcleo central fortificado e a catedral, embora as muralhas exteriores sejam já da época moderna, já mais adaptadas para resistir a canhões e à guerra da pólvora. Trata-se de um complexo militar que vale a pena visitar. 


Mesmo junto ao castelo, que fica nas imediações da estação de metro e autocarro, desenvolve-se a cidade propriamente dita, com um comércio de rua variado e de elevada qualidade. Vale a pena passear nessas ruas só por isso também, para se constatar como é possível evitar shoppings e manter lojas conjugadas com uma vida urbana de qualidade. Tanto é que existem duas lojas de jogos de tabuleiro que merecem visita, justificando a criação de mais um percurso de passeio pelo património e jogos de tabuleiro em Paris, para além do já aqui partilhado para a zona central de Paris, na zona do Quartier Latin. 


Saindo pela porta principal da fortaleza seguimos pela Avenue du Château e depois viramos à direita na Rue Lejemptel. Aí vamos encontrar a Au Bois Rieur, que vende jogos de tabuleiro modernos, jogos de madeira e miniaturas. A oferta de jogos não é enorme, mas tem algumas mesas e uma ludoteca que podem usar para jogar. 


Voltando à Avenue du Château, deixando sempre a vista de perspetiva do castelo para trás, vão acabar por chegar à Rue de Fontenay, depois de cruzarem mais duas ruas transversais. Ao atravessarem esta zona urbana vão ter a certeza de que estão França. O aspeto das lojas, dos arranjos urbanos, dos edifícios e o comportamento das pessoas que circulam não enganam, geram um contexto único. 


Chegados à Rue de Fontenay devem virar à direita e vão encontrar a Ludifolie. Para mim esta é a melhor loja da grande Paris. Tem uma enorme variedade de jogos com os títulos mais recentes, os melhores preços e até uma secção de oportunidades que onde podem encontrar jogo a custar menos de metade do preço normal. Têm por lá jogos de todos os tipos, desde os mais familiares aos mais complexos e pesados. Têm jogos de tabuleiro para crianças, jogos em madeira e imensos party games de todos os tamanhos e feitios. Encontram os eurogames e tudo o que possam imaginar. Conseguem facilmente perder uma hora a ver toda a oferta - eu pelo menos não dispenso passar os olhos por todos os jogos expostos. 


Depois de desfrutarem da loja, mesmo que não comprem nada, caso seja do vosso agrado um programa destes, podem perder-se também pela envolvente urbana, sabendo que têm sempre muito perto a estação de metro, os autocarros e o RER A (o comboio, que funciona quase como um metro, naquela que é a linha mais movimentada da europa). Todos estes transportes estão integrados e podem usar os passes diários para os utilizar, voltar num instante ao centro de Paris ou a outro local qualquer na periferia. 


Apesar de eu comprar muitos jogos online, adoro visitar uma boa loja, deambular o olhar pelas caixas. o descoberto inúmeros tesouros assim, e ver um jogo presencialmente é sempre diferente. É quase como a sensação de jogar, pois sem experimentar diretamente nunca saberemos exatamente como é ou como vamos reagir ao jogo. Isto dos jogos tem tudo que ver com emoções. No fundo é como as viagens. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da conferência ao Friend Zone Lounge em Aveiro: Jogos de Tabuleiro na ciência e no mundo Geek

Estava por Aveiro, a propósito de uma conferência internacional sobre videojogos que ia decorrer na Universidade, mas onde havia um painel dedicado a board and table games. Fui lá apresentar o artigo que tinha submetido em parceira com o Edgar, resultando de uma desafio do grande mestre Nelson Zagalo. Hoje o artigo está disponível no site da Springer aqui.  O artigo não é gratuito, mas, infelizmente, é assim o estado da ciência no mundo. Temos de publicar em revistas e conferências indexadas, mas que depois não estão acessíveis a todos. Podemos depois sempre falar sobre o artigo se quiserem.



Como estaria por lá duas noites tentei pensar alternativas para fazer durante a noite. Um dia ia ser dedicado ao jantar de conferência por isso o outro estava livre. Perguntei a uns amigos se havia algum sítio onde se pudesse ir jogar um jogo de tabuleiro, assim dos bons, e conhecer a comunidade local de gamers. Ainda estava com esperanças de poder coincidir com algum dos encontros do Grupo de Boardgamers de Aveiro, mas infelizmente não calhou. Mas o Carlos Abrunhosa disse-me que havia lá um local onde se podia jogar regularmente. Fiquei entusiasmado e curioso.

Felizmente não tive nenhum tempo morto e acabou por ser tudo muito intenso. Tive convite para jantar com umas colegas investigadoras da Universidade de Aveiro. Mas primeiro ainda deu para um almoço super interessante com a Monique que, desde que nos conhecemos na conferência do CITTA,  temos andado a pensar em utilizações sérias de jogos em processo de tomada de decisão. Então, já lá para a noite e depois do workshop que dei sobre modern board games, e de mais umas conversas com outra colega investigadora, desta vez sobre jogos e economia circular, com a Sara, que por pouco não perdia o comboio, chegava o momento do jantar.

Depois de um espetacular rodizio de pizzas, lá fui com a Patrícia, a Rita e a Ana, as colegas investigadores que primeiro referi, investigar o tal local onde se jogavam jogos de tabuleiro modernos em Aveiro. Fiquei ainda mais espantado por aceitarem ir comigo a este suposto refugio geek em Aveiro. Andamos às voltas na zona perto do Mercado de Santiago à procura do tal Friend Zone Lounge. O local funcionava numa loja comum e não havia grande identificação exterior. Depois de algum trabalho colaborativo de detetive lá achamos o local. Entramos e ficámos espantados. Era uma loja com cerca de 20 (jovens) homens a jogar Magic: The Gathering (MTG). Ficou claro que era, acima de tudo, um clube de Magic e que não estavam habituados a receber visitantes. Não conseguiam esconder o espantado de nos ver entrar pela porta sem conhecer ninguém.  Nós também ficámos algo perdidos e tivemos mesmo de pedir ajuda para saber como funcionava o espaço. Tínhamos várias mesas livre e havia uma pequena ludoteca de jogos de tabuleiro moderno, com bons títulos. Não era muitos mas havia coisas interessantes disponíveis para jogarmos. Como não iriamos estar muito tempo, uma vez que a conferência na manhã seguinte não esperava por nós, decidi-me a sugerir uma coisa rápida, uma vez que as minhas colegas não conheciam este tipo de jogos. Jogámos um Colt Express. Acho que elas apreciaram poder andar aos murros e tiros virtuais umas com as outras. Só não sei se se tentaram vingar em mim por as arrastar para aquele submundo.

Fonte: https://www.facebook.com/friendzonelounge/


Depois do nosso jogo fomos à descoberta do resto do espaço. Havia uma sala com sofás onde se podia jogar várias consolas e na cave um minibar para consumo próprio neste espaço coletivo. Deixamos um donativo e ofereceram-nos uma bebida em troca. Aí estava também uma pequena sala de cinema. Pareceu-me que depois disto ficaram mais à-vontade com a nossa presença.  Acabamos por falar sobre o funcionamento do espaço. Trata-se de um projeto muito caseiro, ainda que aberto era definitivamente algo restrito que se alimentava da comunidade de estudantes universitários e jovens profissionais. Isto fez-me lembrar os clubes de MTG de antigamente, quando eu próprio jogava muito intensamente e andava em torneios. Era outro ambiente, mas restrito e elitista. Eu próprio nessa altura não me interessava propriamente pela dimensão social desse hobby e muito menos em experimentar outros jogos fora desse espectro. MTG era o foco total. Hoje em dia tudo é bem diferente. A Internet não estava tão generalizada e acessível, pelo que era mais dificil aceder aos jogos de nicho. Mas com o advento das redes sociais e a forte dimensão social dos jogos de tabuleiro como um hobby crescente e abrangente, os hábitos têm mudado e o isolamento e os clubes mais obscuros de jogos são cada vez mais raros.

No fundo o Friend Lounge é um local muito interessante para jogar em Aveiro. Não tenham receio, ainda que possa demorar um pouco entrar no espírito da coisa. Provavelmente podem ficar também um pouco perdidos enquanto os outros frequentadores estão totalmente focados nos seus jogos, mas não é por mal. Se não quisessem lá pessoal não tinha esta página de Facebook. Esta experiência fez-me refletir sobre o modo como as comunidades e cultura dos jogos de hobby têm mudado em Portugal e no mundo. Há uma tendência de abertura que faz prever que continuaremos a ter cada vez mais pessoas a optar por estas formas de entretenimento e diversão presencial. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Dos Serious Games aos Mapas Mentais #1

Iniciei há pouco tempo uma nova rúbrica no canal de Youtube aqui do projeto Jogos no Tabuleiro dedicada à introdução aos jogos sérios. Podem seguir aqui neste link. Tendo por base as recolhas de dados, experiências, investigações e múltiplas sessões de teste que tenho feito em contexto real de formação, de aulas e de projeto parece-me poder ter utilidade estruturar um pouco todo este conhecimento na forma de vídeos rápidos. Tem sido uma forma útil – pelo menos para mim – de organizar e simplificar ideias. Mas parece que pelo menos mais uma pessoa achou interessante, ao ponto de dedicar algum do seu tempo a trabalhar sobre estes conceitos, sintetizando e criando outa forma de os comunicar, porventura mais eficazes do que os vídeos que criei. O meu amigo Bruno Ribeiro criou um mapa mental e partilhou-o comigo. Como é uma pessoa humilde disse-me que era apenas um draft e ensaio, pois estava a treinar a técnica. Eu achei que ficou excelente e perguntei se podia partilhar. Aqui está então o resultado do trabalho preliminar do Bruno quando iniciou esta aventura.

O Bruno inspirou-me tanto que decidi voltar a pegar na caneta também e começar a fazer os meus próprios rabiscos. Segui o conselho do Daniel Lança Perdição – que é um mestre nesta arte dos mapas mentais - e comecei a tornar-me uma avestruz. Todos sabemos desenhar, basta usar umas formas geométricas e umas linhas – diz ele. Organizar a informação desta forma é poderoso, para reforçar o autoconhecimento e para comunicarmos com os outros. Desde então não dispenso os meus rabiscos. Eu até diria que são essenciais para o design e adaptação de jogos, quer para objetivos lúdicos de entretenimentos ou para as gamications e serious games. Já tentaram rabiscar alguma coisa? No fundo, quando jogamos um jogo de tabuleiro estamos também a fazer mapas mentais, a desenhar no "círculo mágico". É também por isso que os jogos são tão poderosos e cativantes, podendo ser aplicados aos mais diversos contextos e objetivos.

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ludoclube: um espaço único para gamers jogarem em Lisboa

Em novembro estive dois dias por Lisboa a propósito de uma conferência, que por mero acaso coincidiu com uma das noites abertas de jogos no Ludoclube. Para quem não conhece – e é normal que muitos não conheçam – o Ludoclube é um sítio reservado, direcionado para gamers que querem desfrutar de jogos de qualidade num ambiente calmo e controlado. Isto parece um bocado elitista, e de certa maneira é, mas no bom sentido. Qualquer pessoa pode aderir ao Ludoclube, mediante o pagamento de uma quota, mas não se garante que estejam lá pessoas de serviço para explicar jogos. Pode acontecer, mas será sempre numa relação entre pares. Pagar para participar aqui é mais que justificado, pois há custos inerentes a manter um espaço destes. Não é por acaso que ainda existem poucos locais permanentes em Portugal onde se pode estar constantemente a jogar com boas ludotecas, pois obrigam a estruturas de custos consideráveis para serem sustentáveis. Ou existem parcerias com outras entidades ou têm mesmo de ser os utilizadores a suportar os locais de jogo, especialmente quando querem garantir certas condições mínimas. 


Isto de jogos de tabuleiro ditos modernos é um hobby, não convém esquecer. Estes jogos são tecnicamente conhecidos por isso mesmo: por serem jogos de hobby. Isso explica-se pela sua génese, de criadoras e editoras que pegaram em jogos de simulação e começaram a desenvolver as suas próprias criações de modo caseiro ou paralelo à indústria do mercado de massas dos jogos de tabuleiro. Estes novos jogos de nicho escapavam às lógicas de mercado viradas para a consolidação de produtos ditos seguros e do jogo como brinquedo efémero, e foi por isso que prosperaram ao estarem constante a inovar. Ou seja, o ludoclube é exatamente o reflexo disso, de um espaço criado por gamers - por jogadores de hobby - de uma geração mais antiga, de uma altura em que não existia tanta divulgação nas redes sociais e onde os atuais boardgame cafés eram meras fantasias. Malta de outro tempo, mas a quem se tem juntado pessoal mais novo, mantendo o espírito mais underground do hobby. É por isso que isto é um tipo de elitismo positivo, porque se garante o aprofundamento do hobby num ambiente próprio e livre de outras logicas externas. Com cada vez mais eventos generalistas e direcionados para o grande público, com convenções que se assumem como festivais de jogos que tendem para os jogos mais leves, há que valorizar quem persiste e quer investir na diferenciação. 


Foi isto que senti quando visitei o Ludoclube. O espaço tem uma ludoteca impressionante, em variedade e qualidade. Tem boas condições para se jogar, muitas mesas com recantos e para se desfrutar dos jogos de forma recatada, pois permite a concentração no jogo e no grupo sem dispersões. Sem em alguns encontros e eventos pode parecer que há coisas mais importantes para além dos jogos e as pessoas que efetivamente os jogam, no ludoclube senti que estava numa câmara de amplificação da essência do hobby, no seu estado mais puro. 

Quem participa em muitas atividades de demostração e evangelização de jogos – como eu -, em que estamos constantemente a explicar os mesmos jogos de introdução a novos públicos sabe quão valioso é termos o nosso momento como gamers. Tendo em conta o atual panorama de crescimento da comunidade e cultura de jogos de tabuleiro em Portugal, espaços únicos como o Ludoclube são tesouros por explorar e preservar. 

Para conhecerem melhor o Ludoclube basta seguir este link. 

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Usar os jogos de tabuleiro para tornar as empresas mais criativas

A criatividade vai ser o capital do futuro. As empresas terão sucesso se conseguirem captar o potencial criativo dos seus colaboradores. Mas as fórmulas do passado parecem pouco apropriadas para o conseguir. Temos de encontrar novas estratégias, mais centradas nas pessoas e no que as distingue das máquinas.  


Existem muitas opções para estimular a criatividade, e uma das mais poderosas passa pelo recurso a jogos. Os jogos são motivadores intrínsecos, o que significa que transportam, naturalmente, os jogadores para o chamado “círculo mágico”, num estado de alienação consciente onde é possível potenciar a criatividade e novas formas de estimulação cognitiva e comunicativa para a resolução de problemas. É como se os jogos proporcionassem arenas de treino e ensaio em que podemos planear e testar as mais variadas ideias e estratégias, sem os efeitos negativos e consequências da realidade. É aquele espaço imaginário onde podemos estudar e compreender o comportamento humano, as atitudes, a diversidade e imprevisibilidade, as prioridades e reações interativas perante os sistemas de jogo e as opções dos demais jogadores. No entanto os jogos têm a vantagem de terem em si sistemas de regras que permitem avaliar o desempenho e sucesso, tudo isto enquanto garantem diversão – ou seja, motivação. Por serem divertidos são melhores que as simulações. Os jogos são assim espaços de aprendizagem através da experimentação, são modos de aprender fazendo, mas também de produzir. 

Os jogos digitais dominam, pois são imediatamente estimulantes e podem ser utilizados por muitos jogadores em simultâneo e à distância, em múltiplas plataformas cada vez mais portáteis. No entanto os jogos analógicos, que não deixaram de evoluir, exploram a dimensão inigualável da interação presencial. Neste momento o setor dos jogos de tabuleiro está a crescer acima dos 20% ao ano, com volumes de negócios que se estimam em breve passar dos 10 mi milhões de dólares. Milhões de pessoas jogam os novos designs de jogos de tabuleiro: os “wargames”, os “role play games” e os jogos de hobby de modelo “europeu” e “americano”, convergindo para modelo híbridos em que o refinamento dos sistemas se conjuga com as narrativas e temas envolventes. Mais de 5.000 jogos são publicados anualmente, em contínuos processos de inovação e criatividade, cada vez mais acessíveis. Centenas de milhares de pessoas rumam às convenções de jogos, e nós cá temos a maior de todas em Portugal: a Leiriacon. Temos também uma das comunidades de boardgamers mais ativas do país: os “Boardgamers de Leiria” da associação Asteriscos, que implementam projetos de inovação social e educativa, para além de garantirem o espaço para um público e comunidade florescentes. Temos também por cá duas editoras que exportam jogos: “Whats your game?” e a “Pythagoras”. Tudo isto é altamente inspirador e parece estar a fazer emergir um cluster em Leiria.

Estes novos jogos de tabuleiro são também tendências dos polos tecnológicos e financeiros como Silicon Valley e Wall Streat. A D. Dinis Business School reconhece isto, e tem-me permitido incluir estes jogos como introdução à gamification e serious games na sua oferta formativa. Estas abordagens servem para que os jogos possam ser integrados das atividades das empresas de forma a estimular a criatividade e muitas outras competências necessárias para o sucesso. Tenho desenvolvido este tipo de soluções, em paralelo com as minhas investigações académicas sobre o poder motivador dos jogos, que podemos utilizar como incentivadores à participação, teste de ideias e resolução de problemas, que geram processo de cocriação e planeamento colaborativo. Parece brincadeira, mas estamos a falar de coisas bem sérias, com provas dadas, mas onde existe ainda muito espaço de progressão e desenvolvimento. Imaginem se pudessem trabalhar enquanto se divertem a jogar, gerando de forma intrínseca mais motivação, criatividade e até felicidade no mercado de trabalho.

Nota: texto publicado no "Guia do Empresário de 2019" no jornal Região de Leiria.

domingo, 3 de novembro de 2019

Equilibrar a vida pessoal e familiar com o hobby dos jogos de tabuleiro modernos

Já jogo regularmente jogos de mesa de hobby há uns anos. Joguei várias coisas, tendo começado pelos jogos de cartas colecionáveis por volta de 1996, mais coisa menos coisa. Cheguei a jogar vários mas foi ao Magic: The Gathering (MTG) que me dediquei. O jogo exigia tempo, para conhecer as novas cartas, para desenhar baralhos e testa-los, fazer todo o processo de trocas e negociação, tal como a competição em torneios e afins. Havia uma comunidade de pessoas que se juntavam para jogar mas muito também simplesmente para debater e conversar o hobby em si. Era verdadeiramente um jogo de hobby, apesar de ser desenhado por um autor conhecido (Richard Garfield) e produzido e distribuído por uma grande empresa da área (Wizards of the Coast) na altura. Com isto surgiam novas amizades que concorriam com as demais, momentos de lazer e diversão que obrigavam a fazer opções. Já contei esta historia muitas vezes. Mas serve para introduzir aqui ao tema dos jogos de hobby e para relacionar com um artigo cientifico que li e merece ser referido.


Quando me iniciei nos jogos de tabuleiro modernos, depois de anos a jogar Catan de forma muito causal só mesmo com amigos, apercebi-me da dimensão deste mundo e acabei por adotar a mesma dedicação e abordagem que ao MTG, embora tenho deliberadamente ignorado todo o aspeto competitivo. Estes jogos proporcionavam-me o que sempre goste: uma atividade para animar ajuntamentos de pessoas, aprendizagem, desafios intelectuais, novidades de temas e mecânicas, tal como um colecionismo inegável para mim. Da Leiriacon, aos encontros mensais da Spiel Portugal foi um processo natural e quase casual, com o importante marco que foi a fundação dos Boardgamers de Leiria, então já de forma deliberada e intencional, com a esperança de no futuro haver realmente uma comunidade e hobby forte com condições para prosperar em Leiria. Hoje este hobby é central na minha vida. Sei que isto aconteceu ou irá acontecer com muitos dos potenciais leitores deste texto, quer seja nos vossos jogos em família e amigos, na vossa vertente de colecionador, nos grupos informais ou formais de boardgamers que criaram ou onde participam, no uso de jogos em contextos profissionais ou até como criadores de conteúdos. Mas há mais coisas na vida. Estranho, mas há! Há, acima de tudo, a nossa família e também os amigos, que, tal como já referi, podem entrar em concorrência com esta atividade de hobby. Todos sentimos isto de uma forma ou de outra, mas quando li artigo “Finding Time for Tabletop: Board Game Play and Parenting” que tomei total consciência disto.  

Voltando ao início para relacionar com o artigo. Eu tinha uma vida de (board)gamer antes de iniciar a minha vida profissional, mas também antes de constituir família. E houve um processo contínuo de aprofundamento do envolvimento no hobby e do aumento das responsabilidades familiares, especialmente quando nasceu o segundo filho. Felizmente, mas talvez não por acaso, a minha esposa também gosta de jogar, claramente não tanto quanto eu, mas aprecia bastante também alguns dos meus jogos preferidos, especialmente os eurogames económicos de gestão de recursos e motores de produção, com pouco agressão direta. Aquilo que foi durante algum tempo um passatempo nosso e de alguns amigos mais chegados, transformou-se e transferiu-se, em parte, para uma instituição: os Boardgamers de Leiria, no formato que hoje existe, depois com a participação de muitas mais pessoas que se foram identificando com a ideia. Este projeto começou a exigir cada vez mais tempo e dedicação, tal como a conjugação com a vida familiar, vida profissional e vida académica se complicava cada vez mais. Gerir tudo isto é quase um jogo em si mesmo. Estas vivências são abordadas no artigo que referi anteriormente, pois são situações que muitos gamers vivem. Com o aumento das responsabilidades familiares deixa de haver tempo para os jogos e abrem-se oportunidades para conflitos e frustrações de natureza vária. O artigo relata vários desses casos. Há casos de separações ou de pessoas que deixam o hobby, nem que seja pelo menos em pausa. Mas há casos de compatibilidade, de negociação entre conjugues que conseguem garantir alguma regularidade no hobby. Noutros exemplos há uma transferência, especialmente quando os filhos crescem, para a esfera familiar do tempo dedicado aos jogos. Os principais parceiros de jogo passam a ser os filhos. No entanto, esta solução não está isenta de problemas, porque, enquanto gamers, podemos perder um pouco do que era o nosso espaço individual que nos permitia escapar às rotinas do dia-a-dia. Já conheci gamers que fazem um grande esforço para que os filhos joguem com eles, podendo depois ter o efeito inverso na motivação dos jovens para jogar ao ponto de os saturar e nem quererem ouvir falar de jogos de tabuleiro. Por outro lado, há também quem evite levar os filhos para este mundo, salvaguardando-se da perda do seu espaço individual. Pessoalmente já conheci todo o tipo de casos destes. 

Parece-me que este assunto pode ser relevante, especialmente em Portugal, porque estamos numa fase decisiva do crescimento do hobby. Surgem cada vez mais grupos de boardgamers, autores que tentam criar os seus jogos, criadores de conteúdos e também que pretendam usar os jogos em contexto sério profissional. Tendo em conta que somos muito poucos ainda, apesar do crescente dinamismo, e que alguns destes projetos ainda dependem muito da carolice e obstinação de certas pessoas, se não se conseguir equilibrar a vida no hobby com a vida familiar podemos gerar situações insustentáveis para os envolvidos, que depois não trazem nada de bom para ninguém. Podemos entrar em situações em que pouco ou nada há fazer devido a um processo de autodestruição inconscientes, com vitimas além dos envolvidos num hobby que pode ser muito absorvente. Qual a vossa opinião sobre isto? Será um assunto relevante?

Referência: 
Rogerson, M. J., & Gibbs, M. (2018). Finding time for tabletop: Board game play and parenting. Games and Culture, 13(3), 280-300.

Autor: Micael Sousa
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