quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pelo património e pelas lojas de jogos de Vincennes na zona de Paris

Vincennes é uma cidade de França, na contiguidade de Paris, tanto que praticamente não se distingue desta. O metro, na linha 1 (linha amarela) que atravessa o Louvre chega lá. Por isso dá para ter uma noção da sua centralidade. Vincennes é conhecida pelo seu bosque e jardim, onde existe um Zoo, mas mais famoso é o seu castelo – um verdadeiro conjunto militar de várias épocas históricas. Nele viveram muitos dos reis de frança, especialmente no período medieval. O castelo ainda conserva, dessa época medieval, o núcleo central fortificado e a catedral, embora as muralhas exteriores sejam já da época moderna, já mais adaptadas para resistir a canhões e à guerra da pólvora. Trata-se de um complexo militar que vale a pena visitar. 


Mesmo junto ao castelo, que fica nas imediações da estação de metro e autocarro, desenvolve-se a cidade propriamente dita, com um comércio de rua variado e de elevada qualidade. Vale a pena passear nessas ruas só por isso também, para se constatar como é possível evitar shoppings e manter lojas conjugadas com uma vida urbana de qualidade. Tanto é que existem duas lojas de jogos de tabuleiro que merecem visita, justificando a criação de mais um percurso de passeio pelo património e jogos de tabuleiro em Paris, para além do já aqui partilhado para a zona central de Paris, na zona do Quartier Latin


Saindo pela porta principal da fortaleza seguimos pela Avenue du Château e depois viramos à direita na Rue Lejemptel. Aí vamos encontrar a Au Bois Rieur, que vende jogos de tabuleiro modernos, jogos de madeira e miniaturas. A oferta de jogos não é enorme, mas tem algumas mesas e uma ludoteca que podem usar para jogar. 


Voltando à Avenue du Château, deixando sempre a vista de perspetiva do castelo para trás, vão acabar por chegar à Rue de Fontenay, depois de cruzarem mais duas ruas transversais. Ao atravessarem esta zona urbana vão ter a certeza de que estão França. O aspeto das lojas, dos arranjos urbanos, dos edifícios e o comportamento das pessoas que circulam não enganam, geram um contexto único. 


Chegados à Rue de Fontenay devem virar à direita e vão encontrar a Ludifolie. Para mim esta é a melhor loja da grande Paris. Tem uma enorme variedade de jogos com os títulos mais recentes, os melhores preços e até uma secção de oportunidades que onde podem encontrar jogo a custar menos de metade do preço normal. Têm por lá jogos de todos os tipos, desde os mais familiares aos mais complexos e pesados. Têm jogos de tabuleiro para crianças, jogos em madeira e imensos party games de todos os tamanhos e feitios. Encontram os eurogames e tudo o que possam imaginar. Conseguem facilmente perder uma hora a ver toda a oferta - eu pelo menos não dispenso passar os olhos por todos os jogos expostos. 


Depois de desfrutarem da loja, mesmo que não comprem nada, caso seja do vosso agrado um programa destes, podem perder-se também pela envolvente urbana, sabendo que têm sempre muito perto a estação de metro, os autocarros e o RER A (o comboio, que funciona quase como um metro, naquela que é a linha mais movimentada da europa). Todos estes transportes estão integrados e podem usar os passes diários para os utilizar, voltar num instante ao centro de Paris ou a outro local qualquer na periferia. 


Apesar de eu comprar muitos jogos online, adoro visitar uma boa loja, deambular o olhar pelas caixas. o descoberto inúmeros tesouros assim, e ver um jogo presencialmente é sempre diferente. É quase como a sensação de jogar, pois sem experimentar diretamente nunca saberemos exatamente como é ou como vamos reagir ao jogo. Isto dos jogos tem tudo que ver com emoções. No fundo é como as viagens. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da conferência ao Friend Zone Lounge em Aveiro: Jogos de Tabuleiro na ciência e no mundo Geek

Estava por Aveiro, a propósito de uma conferência internacional sobre videojogos que ia decorrer na Universidade, mas onde havia um painel dedicado a board and table games. Fui lá apresentar o artigo que tinha submetido em parceira com o Edgar, resultando de uma desafio do grande mestre Nelson Zagalo. Hoje o artigo está disponível no site da Springer aqui.  O artigo não é gratuito, mas, infelizmente, é assim o estado da ciência no mundo. Temos de publicar em revistas e conferências indexadas, mas que depois não estão acessíveis a todos. Podemos depois sempre falar sobre o artigo se quiserem.



Como estaria por lá duas noites tentei pensar alternativas para fazer durante a noite. Um dia ia ser dedicado ao jantar de conferência por isso o outro estava livre. Perguntei a uns amigos se havia algum sítio onde se pudesse ir jogar um jogo de tabuleiro, assim dos bons, e conhecer a comunidade local de gamers. Ainda estava com esperanças de poder coincidir com algum dos encontros do Grupo de Boardgamers de Aveiro, mas infelizmente não calhou. Mas o Carlos Abrunhosa disse-me que havia lá um local onde se podia jogar regularmente. Fiquei entusiasmado e curioso.

Felizmente não tive nenhum tempo morto e acabou por ser tudo muito intenso. Tive convite para jantar com umas colegas investigadoras da Universidade de Aveiro. Mas primeiro ainda deu para um almoço super interessante com a Monique que, desde que nos conhecemos na conferência do CITTA,  temos andado a pensar em utilizações sérias de jogos em processo de tomada de decisão. Então, já lá para a noite e depois do workshop que dei sobre modern board games, e de mais umas conversas com outra colega investigadora, desta vez sobre jogos e economia circular, com a Sara, que por pouco não perdia o comboio, chegava o momento do jantar.

Depois de um espetacular rodizio de pizzas, lá fui com a Patrícia, a Rita e a Ana, as colegas investigadores que primeiro referi, investigar o tal local onde se jogavam jogos de tabuleiro modernos em Aveiro. Fiquei ainda mais espantado por aceitarem ir comigo a este suposto refugio geek em Aveiro. Andamos às voltas na zona perto do Mercado de Santiago à procura do tal Friend Zone Lounge. O local funcionava numa loja comum e não havia grande identificação exterior. Depois de algum trabalho colaborativo de detetive lá achamos o local. Entramos e ficámos espantados. Era uma loja com cerca de 20 (jovens) homens a jogar Magic: The Gathering (MTG). Ficou claro que era, acima de tudo, um clube de Magic e que não estavam habituados a receber visitantes. Não conseguiam esconder o espantado de nos ver entrar pela porta sem conhecer ninguém.  Nós também ficámos algo perdidos e tivemos mesmo de pedir ajuda para saber como funcionava o espaço. Tínhamos várias mesas livre e havia uma pequena ludoteca de jogos de tabuleiro moderno, com bons títulos. Não era muitos mas havia coisas interessantes disponíveis para jogarmos. Como não iriamos estar muito tempo, uma vez que a conferência na manhã seguinte não esperava por nós, decidi-me a sugerir uma coisa rápida, uma vez que as minhas colegas não conheciam este tipo de jogos. Jogámos um Colt Express. Acho que elas apreciaram poder andar aos murros e tiros virtuais umas com as outras. Só não sei se se tentaram vingar em mim por as arrastar para aquele submundo.

Fonte: https://www.facebook.com/friendzonelounge/


Depois do nosso jogo fomos à descoberta do resto do espaço. Havia uma sala com sofás onde se podia jogar várias consolas e na cave um minibar para consumo próprio neste espaço coletivo. Deixamos um donativo e ofereceram-nos uma bebida em troca. Aí estava também uma pequena sala de cinema. Pareceu-me que depois disto ficaram mais à-vontade com a nossa presença.  Acabamos por falar sobre o funcionamento do espaço. Trata-se de um projeto muito caseiro, ainda que aberto era definitivamente algo restrito que se alimentava da comunidade de estudantes universitários e jovens profissionais. Isto fez-me lembrar os clubes de MTG de antigamente, quando eu próprio jogava muito intensamente e andava em torneios. Era outro ambiente, mas restrito e elitista. Eu próprio nessa altura não me interessava propriamente pela dimensão social desse hobby e muito menos em experimentar outros jogos fora desse espectro. MTG era o foco total. Hoje em dia tudo é bem diferente. A Internet não estava tão generalizada e acessível, pelo que era mais dificil aceder aos jogos de nicho. Mas com o advento das redes sociais e a forte dimensão social dos jogos de tabuleiro como um hobby crescente e abrangente, os hábitos têm mudado e o isolamento e os clubes mais obscuros de jogos são cada vez mais raros.

No fundo o Friend Lounge é um local muito interessante para jogar em Aveiro. Não tenham receio, ainda que possa demorar um pouco entrar no espírito da coisa. Provavelmente podem ficar também um pouco perdidos enquanto os outros frequentadores estão totalmente focados nos seus jogos, mas não é por mal. Se não quisessem lá pessoal não tinha esta página de Facebook. Esta experiência fez-me refletir sobre o modo como as comunidades e cultura dos jogos de hobby têm mudado em Portugal e no mundo. Há uma tendência de abertura que faz prever que continuaremos a ter cada vez mais pessoas a optar por estas formas de entretenimento e diversão presencial. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Dos Serious Games aos Mapas Mentais

Iniciei há pouco tempo uma nova rúbrica no canal de Youtube aqui do projeto Jogos no Tabuleiro dedicada à introdução aos jogos sérios. Podem seguir aqui neste link. Tendo por base as recolhas de dados, experiências, investigações e múltiplas sessões de teste que tenho feito em contexto real de formação, de aulas e de projeto parece-me poder ter utilidade estruturar um pouco todo este conhecimento na forma de vídeos rápidos. Tem sido uma forma útil – pelo menos para mim – de organizar e simplificar ideias. Mas parece que pelo menos mais uma pessoa achou interessante, ao ponto de dedicar algum do seu tempo a trabalhar sobre estes conceitos, sintetizando e criando outa forma de os comunicar, porventura mais eficazes do que os vídeos que criei. O meu amigo Bruno Ribeiro criou um mapa mental e partilhou-o comigo. Como é uma pessoa humilde disse-me que era apenas um draft e ensaio, pois estava a treinar a técnica. Eu achei que ficou excelente e perguntei se podia partilhar. Aqui está então o resultado do trabalho preliminar do Bruno quando iniciou esta aventura.

O Bruno inspirou-me tanto que decidi voltar a pegar na caneta também e começar a fazer os meus próprios rabiscos. Segui o conselho do Daniel Lança Perdição – que é um mestre nesta arte dos mapas mentais - e comecei a tornar-me uma avestruz. Todos sabemos desenhar, basta usar umas formas geométricas e umas linhas – diz ele. Organizar a informação desta forma é poderoso, para reforçar o autoconhecimento e para comunicarmos com os outros. Desde então não dispenso os meus rabiscos. Eu até diria que são essenciais para o design e adaptação de jogos, quer para objetivos lúdicos de entretenimentos ou para as gamications e serious games. Já tentaram rabiscar alguma coisa? No fundo, quando jogamos um jogo de tabuleiro estamos também a fazer mapas mentais, a desenhar no "círculo mágico". É também por isso que os jogos são tão poderosos e cativantes, podendo ser aplicados aos mais diversos contextos e objetivos.

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ludoclube: um espaço único para gamers jogarem em Lisboa

Em novembro estive dois dias por Lisboa a propósito de uma conferência, que por mero acaso coincidiu com uma das noites abertas de jogos no Ludoclube. Para quem não conhece – e é normal que muitos não conheçam – o Ludoclube é um sítio reservado, direcionado para gamers que querem desfrutar de jogos de qualidade num ambiente calmo e controlado. Isto parece um bocado elitista, e de certa maneira é, mas no bom sentido. Qualquer pessoa pode aderir ao Ludoclube, mediante o pagamento de uma quota, mas não se garante que estejam lá pessoas de serviço para explicar jogos. Pode acontecer, mas será sempre numa relação entre pares. Pagar para participar aqui é mais que justificado, pois há custos inerentes a manter um espaço destes. Não é por acaso que ainda existem poucos locais permanentes em Portugal onde se pode estar constantemente a jogar com boas ludotecas, pois obrigam a estruturas de custos consideráveis para serem sustentáveis. Ou existem parcerias com outras entidades ou têm mesmo de ser os utilizadores a suportar os locais de jogo, especialmente quando querem garantir certas condições mínimas. 


Isto de jogos de tabuleiro ditos modernos é um hobby, não convém esquecer. Estes jogos são tecnicamente conhecidos por isso mesmo: por serem jogos de hobby. Isso explica-se pela sua génese, de criadoras e editoras que pegaram em jogos de simulação e começaram a desenvolver as suas próprias criações de modo caseiro ou paralelo à indústria do mercado de massas dos jogos de tabuleiro. Estes novos jogos de nicho escapavam às lógicas de mercado viradas para a consolidação de produtos ditos seguros e do jogo como brinquedo efémero, e foi por isso que prosperaram ao estarem constante a inovar. Ou seja, o ludoclube é exatamente o reflexo disso, de um espaço criado por gamers - por jogadores de hobby - de uma geração mais antiga, de uma altura em que não existia tanta divulgação nas redes sociais e onde os atuais boardgame cafés eram meras fantasias. Malta de outro tempo, mas a quem se tem juntado pessoal mais novo, mantendo o espírito mais underground do hobby. É por isso que isto é um tipo de elitismo positivo, porque se garante o aprofundamento do hobby num ambiente próprio e livre de outras logicas externas. Com cada vez mais eventos generalistas e direcionados para o grande público, com convenções que se assumem como festivais de jogos que tendem para os jogos mais leves, há que valorizar quem persiste e quer investir na diferenciação. 


Foi isto que senti quando visitei o Ludoclube. O espaço tem uma ludoteca impressionante, em variedade e qualidade. Tem boas condições para se jogar, muitas mesas com recantos e para se desfrutar dos jogos de forma recatada, pois permite a concentração no jogo e no grupo sem dispersões. Sem em alguns encontros e eventos pode parecer que há coisas mais importantes para além dos jogos e as pessoas que efetivamente os jogam, no ludoclube senti que estava numa câmara de amplificação da essência do hobby, no seu estado mais puro. 

Quem participa em muitas atividades de demostração e evangelização de jogos – como eu -, em que estamos constantemente a explicar os mesmos jogos de introdução a novos públicos sabe quão valioso é termos o nosso momento como gamers. Tendo em conta o atual panorama de crescimento da comunidade e cultura de jogos de tabuleiro em Portugal, espaços únicos como o Ludoclube são tesouros por explorar e preservar. 

Para conhecerem melhor o Ludoclube basta seguir este link

Autor: Micael Sousa
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