quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Pelo património e pelas lojas de jogos de Vincennes na zona de Paris

Vincennes é uma cidade de França, na contiguidade de Paris, tanto que praticamente não se distingue desta. O metro, na linha 1 (linha amarela) que atravessa o Louvre chega lá. Por isso dá para ter uma noção da sua centralidade. Vincennes é conhecida pelo seu bosque e jardim, onde existe um Zoo, mas mais famoso é o seu castelo – um verdadeiro conjunto militar de várias épocas históricas. Nele viveram muitos dos reis de frança, especialmente no período medieval. O castelo ainda conserva, dessa época medieval, o núcleo central fortificado e a catedral, embora as muralhas exteriores sejam já da época moderna, já mais adaptadas para resistir a canhões e à guerra da pólvora. Trata-se de um complexo militar que vale a pena visitar. 


Mesmo junto ao castelo, que fica nas imediações da estação de metro e autocarro, desenvolve-se a cidade propriamente dita, com um comércio de rua variado e de elevada qualidade. Vale a pena passear nessas ruas só por isso também, para se constatar como é possível evitar shoppings e manter lojas conjugadas com uma vida urbana de qualidade. Tanto é que existem duas lojas de jogos de tabuleiro que merecem visita, justificando a criação de mais um percurso de passeio pelo património e jogos de tabuleiro em Paris, para além do já aqui partilhado para a zona central de Paris, na zona do Quartier Latin


Saindo pela porta principal da fortaleza seguimos pela Avenue du Château e depois viramos à direita na Rue Lejemptel. Aí vamos encontrar a Au Bois Rieur, que vende jogos de tabuleiro modernos, jogos de madeira e miniaturas. A oferta de jogos não é enorme, mas tem algumas mesas e uma ludoteca que podem usar para jogar. 


Voltando à Avenue du Château, deixando sempre a vista de perspetiva do castelo para trás, vão acabar por chegar à Rue de Fontenay, depois de cruzarem mais duas ruas transversais. Ao atravessarem esta zona urbana vão ter a certeza de que estão França. O aspeto das lojas, dos arranjos urbanos, dos edifícios e o comportamento das pessoas que circulam não enganam, geram um contexto único. 


Chegados à Rue de Fontenay devem virar à direita e vão encontrar a Ludifolie. Para mim esta é a melhor loja da grande Paris. Tem uma enorme variedade de jogos com os títulos mais recentes, os melhores preços e até uma secção de oportunidades que onde podem encontrar jogo a custar menos de metade do preço normal. Têm por lá jogos de todos os tipos, desde os mais familiares aos mais complexos e pesados. Têm jogos de tabuleiro para crianças, jogos em madeira e imensos party games de todos os tamanhos e feitios. Encontram os eurogames e tudo o que possam imaginar. Conseguem facilmente perder uma hora a ver toda a oferta - eu pelo menos não dispenso passar os olhos por todos os jogos expostos. 


Depois de desfrutarem da loja, mesmo que não comprem nada, caso seja do vosso agrado um programa destes, podem perder-se também pela envolvente urbana, sabendo que têm sempre muito perto a estação de metro, os autocarros e o RER A (o comboio, que funciona quase como um metro, naquela que é a linha mais movimentada da europa). Todos estes transportes estão integrados e podem usar os passes diários para os utilizar, voltar num instante ao centro de Paris ou a outro local qualquer na periferia. 


Apesar de eu comprar muitos jogos online, adoro visitar uma boa loja, deambular o olhar pelas caixas. o descoberto inúmeros tesouros assim, e ver um jogo presencialmente é sempre diferente. É quase como a sensação de jogar, pois sem experimentar diretamente nunca saberemos exatamente como é ou como vamos reagir ao jogo. Isto dos jogos tem tudo que ver com emoções. No fundo é como as viagens. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Da conferência ao Friend Zone Lounge em Aveiro: Jogos de Tabuleiro na ciência e no mundo Geek

Estava por Aveiro, a propósito de uma conferência internacional sobre videojogos que ia decorrer na Universidade, mas onde havia um painel dedicado a board and table games. Fui lá apresentar o artigo que tinha submetido em parceira com o Edgar, resultando de uma desafio do grande mestre Nelson Zagalo. Hoje o artigo está disponível no site da Springer aqui.  O artigo não é gratuito, mas, infelizmente, é assim o estado da ciência no mundo. Temos de publicar em revistas e conferências indexadas, mas que depois não estão acessíveis a todos. Podemos depois sempre falar sobre o artigo se quiserem.



Como estaria por lá duas noites tentei pensar alternativas para fazer durante a noite. Um dia ia ser dedicado ao jantar de conferência por isso o outro estava livre. Perguntei a uns amigos se havia algum sítio onde se pudesse ir jogar um jogo de tabuleiro, assim dos bons, e conhecer a comunidade local de gamers. Ainda estava com esperanças de poder coincidir com algum dos encontros do Grupo de Boardgamers de Aveiro, mas infelizmente não calhou. Mas o Carlos Abrunhosa disse-me que havia lá um local onde se podia jogar regularmente. Fiquei entusiasmado e curioso.

Felizmente não tive nenhum tempo morto e acabou por ser tudo muito intenso. Tive convite para jantar com umas colegas investigadoras da Universidade de Aveiro. Mas primeiro ainda deu para um almoço super interessante com a Monique que, desde que nos conhecemos na conferência do CITTA,  temos andado a pensar em utilizações sérias de jogos em processo de tomada de decisão. Então, já lá para a noite e depois do workshop que dei sobre modern board games, e de mais umas conversas com outra colega investigadora, desta vez sobre jogos e economia circular, com a Sara, que por pouco não perdia o comboio, chegava o momento do jantar.

Depois de um espetacular rodizio de pizzas, lá fui com a Patrícia, a Rita e a Ana, as colegas investigadores que primeiro referi, investigar o tal local onde se jogavam jogos de tabuleiro modernos em Aveiro. Fiquei ainda mais espantado por aceitarem ir comigo a este suposto refugio geek em Aveiro. Andamos às voltas na zona perto do Mercado de Santiago à procura do tal Friend Zone Lounge. O local funcionava numa loja comum e não havia grande identificação exterior. Depois de algum trabalho colaborativo de detetive lá achamos o local. Entramos e ficámos espantados. Era uma loja com cerca de 20 (jovens) homens a jogar Magic: The Gathering (MTG). Ficou claro que era, acima de tudo, um clube de Magic e que não estavam habituados a receber visitantes. Não conseguiam esconder o espantado de nos ver entrar pela porta sem conhecer ninguém.  Nós também ficámos algo perdidos e tivemos mesmo de pedir ajuda para saber como funcionava o espaço. Tínhamos várias mesas livre e havia uma pequena ludoteca de jogos de tabuleiro moderno, com bons títulos. Não era muitos mas havia coisas interessantes disponíveis para jogarmos. Como não iriamos estar muito tempo, uma vez que a conferência na manhã seguinte não esperava por nós, decidi-me a sugerir uma coisa rápida, uma vez que as minhas colegas não conheciam este tipo de jogos. Jogámos um Colt Express. Acho que elas apreciaram poder andar aos murros e tiros virtuais umas com as outras. Só não sei se se tentaram vingar em mim por as arrastar para aquele submundo.

Fonte: https://www.facebook.com/friendzonelounge/


Depois do nosso jogo fomos à descoberta do resto do espaço. Havia uma sala com sofás onde se podia jogar várias consolas e na cave um minibar para consumo próprio neste espaço coletivo. Deixamos um donativo e ofereceram-nos uma bebida em troca. Aí estava também uma pequena sala de cinema. Pareceu-me que depois disto ficaram mais à-vontade com a nossa presença.  Acabamos por falar sobre o funcionamento do espaço. Trata-se de um projeto muito caseiro, ainda que aberto era definitivamente algo restrito que se alimentava da comunidade de estudantes universitários e jovens profissionais. Isto fez-me lembrar os clubes de MTG de antigamente, quando eu próprio jogava muito intensamente e andava em torneios. Era outro ambiente, mas restrito e elitista. Eu próprio nessa altura não me interessava propriamente pela dimensão social desse hobby e muito menos em experimentar outros jogos fora desse espectro. MTG era o foco total. Hoje em dia tudo é bem diferente. A Internet não estava tão generalizada e acessível, pelo que era mais dificil aceder aos jogos de nicho. Mas com o advento das redes sociais e a forte dimensão social dos jogos de tabuleiro como um hobby crescente e abrangente, os hábitos têm mudado e o isolamento e os clubes mais obscuros de jogos são cada vez mais raros.

No fundo o Friend Lounge é um local muito interessante para jogar em Aveiro. Não tenham receio, ainda que possa demorar um pouco entrar no espírito da coisa. Provavelmente podem ficar também um pouco perdidos enquanto os outros frequentadores estão totalmente focados nos seus jogos, mas não é por mal. Se não quisessem lá pessoal não tinha esta página de Facebook. Esta experiência fez-me refletir sobre o modo como as comunidades e cultura dos jogos de hobby têm mudado em Portugal e no mundo. Há uma tendência de abertura que faz prever que continuaremos a ter cada vez mais pessoas a optar por estas formas de entretenimento e diversão presencial. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Dos Serious Games aos Mapas Mentais

Iniciei há pouco tempo uma nova rúbrica no canal de Youtube aqui do projeto Jogos no Tabuleiro dedicada à introdução aos jogos sérios. Podem seguir aqui neste link. Tendo por base as recolhas de dados, experiências, investigações e múltiplas sessões de teste que tenho feito em contexto real de formação, de aulas e de projeto parece-me poder ter utilidade estruturar um pouco todo este conhecimento na forma de vídeos rápidos. Tem sido uma forma útil – pelo menos para mim – de organizar e simplificar ideias. Mas parece que pelo menos mais uma pessoa achou interessante, ao ponto de dedicar algum do seu tempo a trabalhar sobre estes conceitos, sintetizando e criando outa forma de os comunicar, porventura mais eficazes do que os vídeos que criei. O meu amigo Bruno Ribeiro criou um mapa mental e partilhou-o comigo. Como é uma pessoa humilde disse-me que era apenas um draft e ensaio, pois estava a treinar a técnica. Eu achei que ficou excelente e perguntei se podia partilhar. Aqui está então o resultado do trabalho preliminar do Bruno quando iniciou esta aventura.

O Bruno inspirou-me tanto que decidi voltar a pegar na caneta também e começar a fazer os meus próprios rabiscos. Segui o conselho do Daniel Lança Perdição – que é um mestre nesta arte dos mapas mentais - e comecei a tornar-me uma avestruz. Todos sabemos desenhar, basta usar umas formas geométricas e umas linhas – diz ele. Organizar a informação desta forma é poderoso, para reforçar o autoconhecimento e para comunicarmos com os outros. Desde então não dispenso os meus rabiscos. Eu até diria que são essenciais para o design e adaptação de jogos, quer para objetivos lúdicos de entretenimentos ou para as gamications e serious games. Já tentaram rabiscar alguma coisa? No fundo, quando jogamos um jogo de tabuleiro estamos também a fazer mapas mentais, a desenhar no "círculo mágico". É também por isso que os jogos são tão poderosos e cativantes, podendo ser aplicados aos mais diversos contextos e objetivos.

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ludoclube: um espaço único para gamers jogarem em Lisboa

Em novembro estive dois dias por Lisboa a propósito de uma conferência, que por mero acaso coincidiu com uma das noites abertas de jogos no Ludoclube. Para quem não conhece – e é normal que muitos não conheçam – o Ludoclube é um sítio reservado, direcionado para gamers que querem desfrutar de jogos de qualidade num ambiente calmo e controlado. Isto parece um bocado elitista, e de certa maneira é, mas no bom sentido. Qualquer pessoa pode aderir ao Ludoclube, mediante o pagamento de uma quota, mas não se garante que estejam lá pessoas de serviço para explicar jogos. Pode acontecer, mas será sempre numa relação entre pares. Pagar para participar aqui é mais que justificado, pois há custos inerentes a manter um espaço destes. Não é por acaso que ainda existem poucos locais permanentes em Portugal onde se pode estar constantemente a jogar com boas ludotecas, pois obrigam a estruturas de custos consideráveis para serem sustentáveis. Ou existem parcerias com outras entidades ou têm mesmo de ser os utilizadores a suportar os locais de jogo, especialmente quando querem garantir certas condições mínimas. 


Isto de jogos de tabuleiro ditos modernos é um hobby, não convém esquecer. Estes jogos são tecnicamente conhecidos por isso mesmo: por serem jogos de hobby. Isso explica-se pela sua génese, de criadoras e editoras que pegaram em jogos de simulação e começaram a desenvolver as suas próprias criações de modo caseiro ou paralelo à indústria do mercado de massas dos jogos de tabuleiro. Estes novos jogos de nicho escapavam às lógicas de mercado viradas para a consolidação de produtos ditos seguros e do jogo como brinquedo efémero, e foi por isso que prosperaram ao estarem constante a inovar. Ou seja, o ludoclube é exatamente o reflexo disso, de um espaço criado por gamers - por jogadores de hobby - de uma geração mais antiga, de uma altura em que não existia tanta divulgação nas redes sociais e onde os atuais boardgame cafés eram meras fantasias. Malta de outro tempo, mas a quem se tem juntado pessoal mais novo, mantendo o espírito mais underground do hobby. É por isso que isto é um tipo de elitismo positivo, porque se garante o aprofundamento do hobby num ambiente próprio e livre de outras logicas externas. Com cada vez mais eventos generalistas e direcionados para o grande público, com convenções que se assumem como festivais de jogos que tendem para os jogos mais leves, há que valorizar quem persiste e quer investir na diferenciação. 


Foi isto que senti quando visitei o Ludoclube. O espaço tem uma ludoteca impressionante, em variedade e qualidade. Tem boas condições para se jogar, muitas mesas com recantos e para se desfrutar dos jogos de forma recatada, pois permite a concentração no jogo e no grupo sem dispersões. Sem em alguns encontros e eventos pode parecer que há coisas mais importantes para além dos jogos e as pessoas que efetivamente os jogam, no ludoclube senti que estava numa câmara de amplificação da essência do hobby, no seu estado mais puro. 

Quem participa em muitas atividades de demostração e evangelização de jogos – como eu -, em que estamos constantemente a explicar os mesmos jogos de introdução a novos públicos sabe quão valioso é termos o nosso momento como gamers. Tendo em conta o atual panorama de crescimento da comunidade e cultura de jogos de tabuleiro em Portugal, espaços únicos como o Ludoclube são tesouros por explorar e preservar. 

Para conhecerem melhor o Ludoclube basta seguir este link

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Usar os jogos de tabuleiro para tornar as empresas mais criativas

A criatividade vai ser o capital do futuro. As empresas terão sucesso se conseguirem captar o potencial criativo dos seus colaboradores. Mas as fórmulas do passado parecem pouco apropriadas para o conseguir. Temos de encontrar novas estratégias, mais centradas nas pessoas e no que as distingue das máquinas.  


Existem muitas opções para estimular a criatividade, e uma das mais poderosas passa pelo recurso a jogos. Os jogos são motivadores intrínsecos, o que significa que transportam, naturalmente, os jogadores para o chamado “círculo mágico”, num estado de alienação consciente onde é possível potenciar a criatividade e novas formas de estimulação cognitiva e comunicativa para a resolução de problemas. É como se os jogos proporcionassem arenas de treino e ensaio em que podemos planear e testar as mais variadas ideias e estratégias, sem os efeitos negativos e consequências da realidade. É aquele espaço imaginário onde podemos estudar e compreender o comportamento humano, as atitudes, a diversidade e imprevisibilidade, as prioridades e reações interativas perante os sistemas de jogo e as opções dos demais jogadores. No entanto os jogos têm a vantagem de terem em si sistemas de regras que permitem avaliar o desempenho e sucesso, tudo isto enquanto garantem diversão – ou seja, motivação. Por serem divertidos são melhores que as simulações. Os jogos são assim espaços de aprendizagem através da experimentação, são modos de aprender fazendo, mas também de produzir. 

Os jogos digitais dominam, pois são imediatamente estimulantes e podem ser utilizados por muitos jogadores em simultâneo e à distância, em múltiplas plataformas cada vez mais portáteis. No entanto os jogos analógicos, que não deixaram de evoluir, exploram a dimensão inigualável da interação presencial. Neste momento o setor dos jogos de tabuleiro está a crescer acima dos 20% ao ano, com volumes de negócios que se estimam em breve passar dos 10 mi milhões de dólares. Milhões de pessoas jogam os novos designs de jogos de tabuleiro: os “wargames”, os “role play games” e os jogos de hobby de modelo “europeu” e “americano”, convergindo para modelo híbridos em que o refinamento dos sistemas se conjuga com as narrativas e temas envolventes. Mais de 5.000 jogos são publicados anualmente, em contínuos processos de inovação e criatividade, cada vez mais acessíveis. Centenas de milhares de pessoas rumam às convenções de jogos, e nós cá temos a maior de todas em Portugal: a Leiriacon. Temos também uma das comunidades de boardgamers mais ativas do país: os “Boardgamers de Leiria” da associação Asteriscos, que implementam projetos de inovação social e educativa, para além de garantirem o espaço para um público e comunidade florescentes. Temos também por cá duas editoras que exportam jogos: “Whats your game?” e a “Pythagoras”. Tudo isto é altamente inspirador e parece estar a fazer emergir um cluster em Leiria.

Estes novos jogos de tabuleiro são também tendências dos polos tecnológicos e financeiros como Silicon Valley e Wall Streat. A D. Dinis Business School reconhece isto, e tem-me permitido incluir estes jogos como introdução à gamification e serious games na sua oferta formativa. Estas abordagens servem para que os jogos possam ser integrados das atividades das empresas de forma a estimular a criatividade e muitas outras competências necessárias para o sucesso. Tenho desenvolvido este tipo de soluções, em paralelo com as minhas investigações académicas sobre o poder motivador dos jogos, que podemos utilizar como incentivadores à participação, teste de ideias e resolução de problemas, que geram processo de cocriação e planeamento colaborativo. Parece brincadeira, mas estamos a falar de coisas bem sérias, com provas dadas, mas onde existe ainda muito espaço de progressão e desenvolvimento. Imaginem se pudessem trabalhar enquanto se divertem a jogar, gerando de forma intrínseca mais motivação, criatividade e até felicidade no mercado de trabalho.

Nota: texto publicado no "Guia do Empresário de 2019" no jornal Região de Leiria.

domingo, 3 de novembro de 2019

Equilibrar a vida pessoal e familiar com o hobby dos jogos de tabuleiro modernos

Já jogo regularmente jogos de mesa de hobby há uns anos. Joguei várias coisas, tendo começado pelos jogos de cartas colecionáveis por volta de 1996, mais coisa menos coisa. Cheguei a jogar vários mas foi ao Magic: The Gathering (MTG) que me dediquei. O jogo exigia tempo, para conhecer as novas cartas, para desenhar baralhos e testa-los, fazer todo o processo de trocas e negociação, tal como a competição em torneios e afins. Havia uma comunidade de pessoas que se juntavam para jogar mas muito também simplesmente para debater e conversar o hobby em si. Era verdadeiramente um jogo de hobby, apesar de ser desenhado por um autor conhecido (Richard Garfield) e produzido e distribuído por uma grande empresa da área (Wizards of the Coast) na altura. Com isto surgiam novas amizades que concorriam com as demais, momentos de lazer e diversão que obrigavam a fazer opções. Já contei esta historia muitas vezes. Mas serve para introduzir aqui ao tema dos jogos de hobby e para relacionar com um artigo cientifico que li e merece ser referido.


Quando me iniciei nos jogos de tabuleiro modernos, depois de anos a jogar Catan de forma muito causal só mesmo com amigos, apercebi-me da dimensão deste mundo e acabei por adotar a mesma dedicação e abordagem que ao MTG, embora tenho deliberadamente ignorado todo o aspeto competitivo. Estes jogos proporcionavam-me o que sempre goste: uma atividade para animar ajuntamentos de pessoas, aprendizagem, desafios intelectuais, novidades de temas e mecânicas, tal como um colecionismo inegável para mim. Da Leiriacon, aos encontros mensais da Spiel Portugal foi um processo natural e quase casual, com o importante marco que foi a fundação dos Boardgamers de Leiria, então já de forma deliberada e intencional, com a esperança de no futuro haver realmente uma comunidade e hobby forte com condições para prosperar em Leiria. Hoje este hobby é central na minha vida. Sei que isto aconteceu ou irá acontecer com muitos dos potenciais leitores deste texto, quer seja nos vossos jogos em família e amigos, na vossa vertente de colecionador, nos grupos informais ou formais de boardgamers que criaram ou onde participam, no uso de jogos em contextos profissionais ou até como criadores de conteúdos. Mas há mais coisas na vida. Estranho, mas há! Há, acima de tudo, a nossa família e também os amigos, que, tal como já referi, podem entrar em concorrência com esta atividade de hobby. Todos sentimos isto de uma forma ou de outra, mas quando li artigo “Finding Time for Tabletop: Board Game Play and Parenting” que tomei total consciência disto.  

Voltando ao início para relacionar com o artigo. Eu tinha uma vida de (board)gamer antes de iniciar a minha vida profissional, mas também antes de constituir família. E houve um processo contínuo de aprofundamento do envolvimento no hobby e do aumento das responsabilidades familiares, especialmente quando nasceu o segundo filho. Felizmente, mas talvez não por acaso, a minha esposa também gosta de jogar, claramente não tanto quanto eu, mas aprecia bastante também alguns dos meus jogos preferidos, especialmente os eurogames económicos de gestão de recursos e motores de produção, com pouco agressão direta. Aquilo que foi durante algum tempo um passatempo nosso e de alguns amigos mais chegados, transformou-se e transferiu-se, em parte, para uma instituição: os Boardgamers de Leiria, no formato que hoje existe, depois com a participação de muitas mais pessoas que se foram identificando com a ideia. Este projeto começou a exigir cada vez mais tempo e dedicação, tal como a conjugação com a vida familiar, vida profissional e vida académica se complicava cada vez mais. Gerir tudo isto é quase um jogo em si mesmo. Estas vivências são abordadas no artigo que referi anteriormente, pois são situações que muitos gamers vivem. Com o aumento das responsabilidades familiares deixa de haver tempo para os jogos e abrem-se oportunidades para conflitos e frustrações de natureza vária. O artigo relata vários desses casos. Há casos de separações ou de pessoas que deixam o hobby, nem que seja pelo menos em pausa. Mas há casos de compatibilidade, de negociação entre conjugues que conseguem garantir alguma regularidade no hobby. Noutros exemplos há uma transferência, especialmente quando os filhos crescem, para a esfera familiar do tempo dedicado aos jogos. Os principais parceiros de jogo passam a ser os filhos. No entanto, esta solução não está isenta de problemas, porque, enquanto gamers, podemos perder um pouco do que era o nosso espaço individual que nos permitia escapar às rotinas do dia-a-dia. Já conheci gamers que fazem um grande esforço para que os filhos joguem com eles, podendo depois ter o efeito inverso na motivação dos jovens para jogar ao ponto de os saturar e nem quererem ouvir falar de jogos de tabuleiro. Por outro lado, há também quem evite levar os filhos para este mundo, salvaguardando-se da perda do seu espaço individual. Pessoalmente já conheci todo o tipo de casos destes. 

Parece-me que este assunto pode ser relevante, especialmente em Portugal, porque estamos numa fase decisiva do crescimento do hobby. Surgem cada vez mais grupos de boardgamers, autores que tentam criar os seus jogos, criadores de conteúdos e também que pretendam usar os jogos em contexto sério profissional. Tendo em conta que somos muito poucos ainda, apesar do crescente dinamismo, e que alguns destes projetos ainda dependem muito da carolice e obstinação de certas pessoas, se não se conseguir equilibrar a vida no hobby com a vida familiar podemos gerar situações insustentáveis para os envolvidos, que depois não trazem nada de bom para ninguém. Podemos entrar em situações em que pouco ou nada há fazer devido a um processo de autodestruição inconscientes, com vitimas além dos envolvidos num hobby que pode ser muito absorvente. Qual a vossa opinião sobre isto? Será um assunto relevante?

Referência: 
Rogerson, M. J., & Gibbs, M. (2018). Finding time for tabletop: Board game play and parenting. Games and Culture, 13(3), 280-300.

Autor: Micael Sousa

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Uma visita ao boardgame café: A Jogar é que a Gente se Entende

Finalmente consegui ir ao boardgame Café “A Jogar é que a Gente se Entende” (AJeqaGsE). Foi preciso quase um ano para conseguir rumar até Vila do Conde e desfrutar deste magnifico espaço. O AJeqaGsE não é o primeiro boardgame café do país, pois podemos considerar que outros o tenham precedido, como por exemplo o Pow Wow em Lisboa - outro local que ainda estou por visitar. E pelo que me constou há mais uns locais onde se pode jogar que poderiam ser considerados como tal também, mais nuns aspetos que noutros. 


No entanto o AJeqaGsE é uma novidade pelo modo diferente como juntou o jogar e o estar num café, e enquadra-se mais naquilo que encontramos nos boardgame cafés dessa europa fora, presentes em quase todas as grandes cidades. Tendem a ser espaços pensados propositadamente para esse fim, com decoração e ambientes muito próprios, muito descontraídos e confortáveis, onde as pessoas estão no centro do negócio, até mais que os próprios jogos. Nesses espaços ficamos com sensação de que estamos em casa, numa sala de estar de um amigo com bom gosto por decoração de interiores, em que os jogos são elementos participantes do ambiente e decoração. Já fui a vários, especialmente na zona de Paris, e o AJeqaGsE não fica nada atrás deles, muito pelo contrário. Posso dizer, com segurança, que foi dos melhores onde já estive até hoje, tendo estado já em espaços deste tipo em Paris, Barcelona, Bruxelas, Londres, Orleães e Bucareste. De todos o AJeqaGsE foi mesmo aquele onde me senti melhor, mas também se percebe porquê. Em nenhum dos outros conhecia os proprietários e não se falava português, o que facilita muito – temos de admitir. A nossa cultura portuguesa sente-se e ajuda a acolher mesmo de forma passiva. Foi tão fácil encontrar pessoas para fazer uma partida. Apesar de ir sem muito tempo ainda deu para jogar um Via Nebula, com o Vinicius, Rita e Hugo, até então desconhecidos para mim, mas que fiquei imediatamente em ligação através das redes sociais, que é uma facilidade hoje em dia ao dispor da nossa comunidade de hobby – muito importante para nos mantermos ligados a esta paixão pelos jogos. 


Então, no AJeqaGsE vão encontrar uma impressionante oferta de jogos que podem experimentar, com pessoas que vos podem ajudar a jogar. Vão ter comida caseira e diferenciada - o Hamburger que comi estava excelente. Entre bolos e outras bebidas, vão poder provar várias cervejas artesanais – o que para mim é perfeito porque sou um apreciador de cerveja diferenciada. Os preços não são exagerados, porque não se esqueçam que estão a pagar também a experiência, os jogos e todo o conhecimento necessário para que tudo aquilo funcione. Em Portugal temos por hábito desconsiderar essas coisas, mas se não as pagarmos não há projeto que possa sobreviver – está na altura de começar a pagar as coisas imateriais também. É um pouco como a produção de conteúdos sobre jogos de tabuleiro, eles só podem melhorar com apoio dos interessados – porque custa sempre tempo e dinheiro. Quanto ao espaço, o AJeqaGsE não é gigante, é aconchegante e acolhedor, se fosse maior provavelmente perderia esse encanto. No entanto imagino que ter mais mesas pudesse ajudar à sustentabilidade financeira do negócio. A localização parece interessante, embora só lá tenha chegado com GPS, uma vez que não conhecia Vila do Conde. O café insere-se num conjunto urbano à beira mar muito interessante, com um porto e edificado patrimonial muito típico. Mas como era noite não deu para ter uma visão mais ampla. Gostei da nau que por lá atracava e do ambiente naval histórico quando atravessei de carro a cidade, perto do AJeqaGsE. 


Em jeito de resumo, foi muito bom rever a Dina e o Manuel, e conhecer o seu pequeno, no seu ambiente e ver que o seu projeto está a correr bem. Demonstraram-nos que, quando há paixão por algo os projetos podem vingar, que não é só uma questão de acreditar, mas principalmente: de ter conhecimento do que se pretende fazer e da capacidade de planeamento e concretização. Eu diria que isso aprendemos também nos jogos que jogamos. 


autor: Micael Sousa

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...