quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Dos Serious Games aos Mapas Mentais

Iniciei há pouco tempo uma nova rúbrica no canal de Youtube aqui do projeto Jogos no Tabuleiro dedicada à introdução aos jogos sérios. Podem seguir aqui neste link. Tendo por base as recolhas de dados, experiências, investigações e múltiplas sessões de teste que tenho feito em contexto real de formação, de aulas e de projeto parece-me poder ter utilidade estruturar um pouco todo este conhecimento na forma de vídeos rápidos. Tem sido uma forma útil – pelo menos para mim – de organizar e simplificar ideias. Mas parece que pelo menos mais uma pessoa achou interessante, ao ponto de dedicar algum do seu tempo a trabalhar sobre estes conceitos, sintetizando e criando outa forma de os comunicar, porventura mais eficazes do que os vídeos que criei. O meu amigo Bruno Ribeiro criou um mapa mental e partilhou-o comigo. Como é uma pessoa humilde disse-me que era apenas um draft e ensaio, pois estava a treinar a técnica. Eu achei que ficou excelente e perguntei se podia partilhar. Aqui está então o resultado do trabalho preliminar do Bruno quando iniciou esta aventura.

O Bruno inspirou-me tanto que decidi voltar a pegar na caneta também e começar a fazer os meus próprios rabiscos. Segui o conselho do Daniel Lança Perdição – que é um mestre nesta arte dos mapas mentais - e comecei a tornar-me uma avestruz. Todos sabemos desenhar, basta usar umas formas geométricas e umas linhas – diz ele. Organizar a informação desta forma é poderoso, para reforçar o autoconhecimento e para comunicarmos com os outros. Desde então não dispenso os meus rabiscos. Eu até diria que são essenciais para o design e adaptação de jogos, quer para objetivos lúdicos de entretenimentos ou para as gamications e serious games. Já tentaram rabiscar alguma coisa? No fundo, quando jogamos um jogo de tabuleiro estamos também a fazer mapas mentais, a desenhar no "círculo mágico". É também por isso que os jogos são tão poderosos e cativantes, podendo ser aplicados aos mais diversos contextos e objetivos.

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ludoclube: um espaço único para gamers jogarem em Lisboa

Em novembro estive dois dias por Lisboa a propósito de uma conferência, que por mero acaso coincidiu com uma das noites abertas de jogos no Ludoclube. Para quem não conhece – e é normal que muitos não conheçam – o Ludoclube é um sítio reservado, direcionado para gamers que querem desfrutar de jogos de qualidade num ambiente calmo e controlado. Isto parece um bocado elitista, e de certa maneira é, mas no bom sentido. Qualquer pessoa pode aderir ao Ludoclube, mediante o pagamento de uma quota, mas não se garante que estejam lá pessoas de serviço para explicar jogos. Pode acontecer, mas será sempre numa relação entre pares. Pagar para participar aqui é mais que justificado, pois há custos inerentes a manter um espaço destes. Não é por acaso que ainda existem poucos locais permanentes em Portugal onde se pode estar constantemente a jogar com boas ludotecas, pois obrigam a estruturas de custos consideráveis para serem sustentáveis. Ou existem parcerias com outras entidades ou têm mesmo de ser os utilizadores a suportar os locais de jogo, especialmente quando querem garantir certas condições mínimas. 


Isto de jogos de tabuleiro ditos modernos é um hobby, não convém esquecer. Estes jogos são tecnicamente conhecidos por isso mesmo: por serem jogos de hobby. Isso explica-se pela sua génese, de criadoras e editoras que pegaram em jogos de simulação e começaram a desenvolver as suas próprias criações de modo caseiro ou paralelo à indústria do mercado de massas dos jogos de tabuleiro. Estes novos jogos de nicho escapavam às lógicas de mercado viradas para a consolidação de produtos ditos seguros e do jogo como brinquedo efémero, e foi por isso que prosperaram ao estarem constante a inovar. Ou seja, o ludoclube é exatamente o reflexo disso, de um espaço criado por gamers - por jogadores de hobby - de uma geração mais antiga, de uma altura em que não existia tanta divulgação nas redes sociais e onde os atuais boardgame cafés eram meras fantasias. Malta de outro tempo, mas a quem se tem juntado pessoal mais novo, mantendo o espírito mais underground do hobby. É por isso que isto é um tipo de elitismo positivo, porque se garante o aprofundamento do hobby num ambiente próprio e livre de outras logicas externas. Com cada vez mais eventos generalistas e direcionados para o grande público, com convenções que se assumem como festivais de jogos que tendem para os jogos mais leves, há que valorizar quem persiste e quer investir na diferenciação. 


Foi isto que senti quando visitei o Ludoclube. O espaço tem uma ludoteca impressionante, em variedade e qualidade. Tem boas condições para se jogar, muitas mesas com recantos e para se desfrutar dos jogos de forma recatada, pois permite a concentração no jogo e no grupo sem dispersões. Sem em alguns encontros e eventos pode parecer que há coisas mais importantes para além dos jogos e as pessoas que efetivamente os jogam, no ludoclube senti que estava numa câmara de amplificação da essência do hobby, no seu estado mais puro. 

Quem participa em muitas atividades de demostração e evangelização de jogos – como eu -, em que estamos constantemente a explicar os mesmos jogos de introdução a novos públicos sabe quão valioso é termos o nosso momento como gamers. Tendo em conta o atual panorama de crescimento da comunidade e cultura de jogos de tabuleiro em Portugal, espaços únicos como o Ludoclube são tesouros por explorar e preservar. 

Para conhecerem melhor o Ludoclube basta seguir este link

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Usar os jogos de tabuleiro para tornar as empresas mais criativas

A criatividade vai ser o capital do futuro. As empresas terão sucesso se conseguirem captar o potencial criativo dos seus colaboradores. Mas as fórmulas do passado parecem pouco apropriadas para o conseguir. Temos de encontrar novas estratégias, mais centradas nas pessoas e no que as distingue das máquinas.  


Existem muitas opções para estimular a criatividade, e uma das mais poderosas passa pelo recurso a jogos. Os jogos são motivadores intrínsecos, o que significa que transportam, naturalmente, os jogadores para o chamado “círculo mágico”, num estado de alienação consciente onde é possível potenciar a criatividade e novas formas de estimulação cognitiva e comunicativa para a resolução de problemas. É como se os jogos proporcionassem arenas de treino e ensaio em que podemos planear e testar as mais variadas ideias e estratégias, sem os efeitos negativos e consequências da realidade. É aquele espaço imaginário onde podemos estudar e compreender o comportamento humano, as atitudes, a diversidade e imprevisibilidade, as prioridades e reações interativas perante os sistemas de jogo e as opções dos demais jogadores. No entanto os jogos têm a vantagem de terem em si sistemas de regras que permitem avaliar o desempenho e sucesso, tudo isto enquanto garantem diversão – ou seja, motivação. Por serem divertidos são melhores que as simulações. Os jogos são assim espaços de aprendizagem através da experimentação, são modos de aprender fazendo, mas também de produzir. 

Os jogos digitais dominam, pois são imediatamente estimulantes e podem ser utilizados por muitos jogadores em simultâneo e à distância, em múltiplas plataformas cada vez mais portáteis. No entanto os jogos analógicos, que não deixaram de evoluir, exploram a dimensão inigualável da interação presencial. Neste momento o setor dos jogos de tabuleiro está a crescer acima dos 20% ao ano, com volumes de negócios que se estimam em breve passar dos 10 mi milhões de dólares. Milhões de pessoas jogam os novos designs de jogos de tabuleiro: os “wargames”, os “role play games” e os jogos de hobby de modelo “europeu” e “americano”, convergindo para modelo híbridos em que o refinamento dos sistemas se conjuga com as narrativas e temas envolventes. Mais de 5.000 jogos são publicados anualmente, em contínuos processos de inovação e criatividade, cada vez mais acessíveis. Centenas de milhares de pessoas rumam às convenções de jogos, e nós cá temos a maior de todas em Portugal: a Leiriacon. Temos também uma das comunidades de boardgamers mais ativas do país: os “Boardgamers de Leiria” da associação Asteriscos, que implementam projetos de inovação social e educativa, para além de garantirem o espaço para um público e comunidade florescentes. Temos também por cá duas editoras que exportam jogos: “Whats your game?” e a “Pythagoras”. Tudo isto é altamente inspirador e parece estar a fazer emergir um cluster em Leiria.

Estes novos jogos de tabuleiro são também tendências dos polos tecnológicos e financeiros como Silicon Valley e Wall Streat. A D. Dinis Business School reconhece isto, e tem-me permitido incluir estes jogos como introdução à gamification e serious games na sua oferta formativa. Estas abordagens servem para que os jogos possam ser integrados das atividades das empresas de forma a estimular a criatividade e muitas outras competências necessárias para o sucesso. Tenho desenvolvido este tipo de soluções, em paralelo com as minhas investigações académicas sobre o poder motivador dos jogos, que podemos utilizar como incentivadores à participação, teste de ideias e resolução de problemas, que geram processo de cocriação e planeamento colaborativo. Parece brincadeira, mas estamos a falar de coisas bem sérias, com provas dadas, mas onde existe ainda muito espaço de progressão e desenvolvimento. Imaginem se pudessem trabalhar enquanto se divertem a jogar, gerando de forma intrínseca mais motivação, criatividade e até felicidade no mercado de trabalho.

Nota: texto publicado no "Guia do Empresário de 2019" no jornal Região de Leiria.

domingo, 3 de novembro de 2019

Equilibrar a vida pessoal e familiar com o hobby dos jogos de tabuleiro modernos

Já jogo regularmente jogos de mesa de hobby há uns anos. Joguei várias coisas, tendo começado pelos jogos de cartas colecionáveis por volta de 1996, mais coisa menos coisa. Cheguei a jogar vários mas foi ao Magic: The Gathering (MTG) que me dediquei. O jogo exigia tempo, para conhecer as novas cartas, para desenhar baralhos e testa-los, fazer todo o processo de trocas e negociação, tal como a competição em torneios e afins. Havia uma comunidade de pessoas que se juntavam para jogar mas muito também simplesmente para debater e conversar o hobby em si. Era verdadeiramente um jogo de hobby, apesar de ser desenhado por um autor conhecido (Richard Garfield) e produzido e distribuído por uma grande empresa da área (Wizards of the Coast) na altura. Com isto surgiam novas amizades que concorriam com as demais, momentos de lazer e diversão que obrigavam a fazer opções. Já contei esta historia muitas vezes. Mas serve para introduzir aqui ao tema dos jogos de hobby e para relacionar com um artigo cientifico que li e merece ser referido.


Quando me iniciei nos jogos de tabuleiro modernos, depois de anos a jogar Catan de forma muito causal só mesmo com amigos, apercebi-me da dimensão deste mundo e acabei por adotar a mesma dedicação e abordagem que ao MTG, embora tenho deliberadamente ignorado todo o aspeto competitivo. Estes jogos proporcionavam-me o que sempre goste: uma atividade para animar ajuntamentos de pessoas, aprendizagem, desafios intelectuais, novidades de temas e mecânicas, tal como um colecionismo inegável para mim. Da Leiriacon, aos encontros mensais da Spiel Portugal foi um processo natural e quase casual, com o importante marco que foi a fundação dos Boardgamers de Leiria, então já de forma deliberada e intencional, com a esperança de no futuro haver realmente uma comunidade e hobby forte com condições para prosperar em Leiria. Hoje este hobby é central na minha vida. Sei que isto aconteceu ou irá acontecer com muitos dos potenciais leitores deste texto, quer seja nos vossos jogos em família e amigos, na vossa vertente de colecionador, nos grupos informais ou formais de boardgamers que criaram ou onde participam, no uso de jogos em contextos profissionais ou até como criadores de conteúdos. Mas há mais coisas na vida. Estranho, mas há! Há, acima de tudo, a nossa família e também os amigos, que, tal como já referi, podem entrar em concorrência com esta atividade de hobby. Todos sentimos isto de uma forma ou de outra, mas quando li artigo “Finding Time for Tabletop: Board Game Play and Parenting” que tomei total consciência disto.  

Voltando ao início para relacionar com o artigo. Eu tinha uma vida de (board)gamer antes de iniciar a minha vida profissional, mas também antes de constituir família. E houve um processo contínuo de aprofundamento do envolvimento no hobby e do aumento das responsabilidades familiares, especialmente quando nasceu o segundo filho. Felizmente, mas talvez não por acaso, a minha esposa também gosta de jogar, claramente não tanto quanto eu, mas aprecia bastante também alguns dos meus jogos preferidos, especialmente os eurogames económicos de gestão de recursos e motores de produção, com pouco agressão direta. Aquilo que foi durante algum tempo um passatempo nosso e de alguns amigos mais chegados, transformou-se e transferiu-se, em parte, para uma instituição: os Boardgamers de Leiria, no formato que hoje existe, depois com a participação de muitas mais pessoas que se foram identificando com a ideia. Este projeto começou a exigir cada vez mais tempo e dedicação, tal como a conjugação com a vida familiar, vida profissional e vida académica se complicava cada vez mais. Gerir tudo isto é quase um jogo em si mesmo. Estas vivências são abordadas no artigo que referi anteriormente, pois são situações que muitos gamers vivem. Com o aumento das responsabilidades familiares deixa de haver tempo para os jogos e abrem-se oportunidades para conflitos e frustrações de natureza vária. O artigo relata vários desses casos. Há casos de separações ou de pessoas que deixam o hobby, nem que seja pelo menos em pausa. Mas há casos de compatibilidade, de negociação entre conjugues que conseguem garantir alguma regularidade no hobby. Noutros exemplos há uma transferência, especialmente quando os filhos crescem, para a esfera familiar do tempo dedicado aos jogos. Os principais parceiros de jogo passam a ser os filhos. No entanto, esta solução não está isenta de problemas, porque, enquanto gamers, podemos perder um pouco do que era o nosso espaço individual que nos permitia escapar às rotinas do dia-a-dia. Já conheci gamers que fazem um grande esforço para que os filhos joguem com eles, podendo depois ter o efeito inverso na motivação dos jovens para jogar ao ponto de os saturar e nem quererem ouvir falar de jogos de tabuleiro. Por outro lado, há também quem evite levar os filhos para este mundo, salvaguardando-se da perda do seu espaço individual. Pessoalmente já conheci todo o tipo de casos destes. 

Parece-me que este assunto pode ser relevante, especialmente em Portugal, porque estamos numa fase decisiva do crescimento do hobby. Surgem cada vez mais grupos de boardgamers, autores que tentam criar os seus jogos, criadores de conteúdos e também que pretendam usar os jogos em contexto sério profissional. Tendo em conta que somos muito poucos ainda, apesar do crescente dinamismo, e que alguns destes projetos ainda dependem muito da carolice e obstinação de certas pessoas, se não se conseguir equilibrar a vida no hobby com a vida familiar podemos gerar situações insustentáveis para os envolvidos, que depois não trazem nada de bom para ninguém. Podemos entrar em situações em que pouco ou nada há fazer devido a um processo de autodestruição inconscientes, com vitimas além dos envolvidos num hobby que pode ser muito absorvente. Qual a vossa opinião sobre isto? Será um assunto relevante?

Referência: 
Rogerson, M. J., & Gibbs, M. (2018). Finding time for tabletop: Board game play and parenting. Games and Culture, 13(3), 280-300.

Autor: Micael Sousa

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Uma visita ao boardgame café: A Jogar é que a Gente se Entende

Finalmente consegui ir ao boardgame Café “A Jogar é que a Gente se Entende” (AJeqaGsE). Foi preciso quase um ano para conseguir rumar até Vila do Conde e desfrutar deste magnifico espaço. O AJeqaGsE não é o primeiro boardgame café do país, pois podemos considerar que outros o tenham precedido, como por exemplo o Pow Wow em Lisboa - outro local que ainda estou por visitar. E pelo que me constou há mais uns locais onde se pode jogar que poderiam ser considerados como tal também, mais nuns aspetos que noutros. 


No entanto o AJeqaGsE é uma novidade pelo modo diferente como juntou o jogar e o estar num café, e enquadra-se mais naquilo que encontramos nos boardgame cafés dessa europa fora, presentes em quase todas as grandes cidades. Tendem a ser espaços pensados propositadamente para esse fim, com decoração e ambientes muito próprios, muito descontraídos e confortáveis, onde as pessoas estão no centro do negócio, até mais que os próprios jogos. Nesses espaços ficamos com sensação de que estamos em casa, numa sala de estar de um amigo com bom gosto por decoração de interiores, em que os jogos são elementos participantes do ambiente e decoração. Já fui a vários, especialmente na zona de Paris, e o AJeqaGsE não fica nada atrás deles, muito pelo contrário. Posso dizer, com segurança, que foi dos melhores onde já estive até hoje, tendo estado já em espaços deste tipo em Paris, Barcelona, Bruxelas, Londres, Orleães e Bucareste. De todos o AJeqaGsE foi mesmo aquele onde me senti melhor, mas também se percebe porquê. Em nenhum dos outros conhecia os proprietários e não se falava português, o que facilita muito – temos de admitir. A nossa cultura portuguesa sente-se e ajuda a acolher mesmo de forma passiva. Foi tão fácil encontrar pessoas para fazer uma partida. Apesar de ir sem muito tempo ainda deu para jogar um Via Nebula, com o Vinicius, Rita e Hugo, até então desconhecidos para mim, mas que fiquei imediatamente em ligação através das redes sociais, que é uma facilidade hoje em dia ao dispor da nossa comunidade de hobby – muito importante para nos mantermos ligados a esta paixão pelos jogos. 


Então, no AJeqaGsE vão encontrar uma impressionante oferta de jogos que podem experimentar, com pessoas que vos podem ajudar a jogar. Vão ter comida caseira e diferenciada - o Hamburger que comi estava excelente. Entre bolos e outras bebidas, vão poder provar várias cervejas artesanais – o que para mim é perfeito porque sou um apreciador de cerveja diferenciada. Os preços não são exagerados, porque não se esqueçam que estão a pagar também a experiência, os jogos e todo o conhecimento necessário para que tudo aquilo funcione. Em Portugal temos por hábito desconsiderar essas coisas, mas se não as pagarmos não há projeto que possa sobreviver – está na altura de começar a pagar as coisas imateriais também. É um pouco como a produção de conteúdos sobre jogos de tabuleiro, eles só podem melhorar com apoio dos interessados – porque custa sempre tempo e dinheiro. Quanto ao espaço, o AJeqaGsE não é gigante, é aconchegante e acolhedor, se fosse maior provavelmente perderia esse encanto. No entanto imagino que ter mais mesas pudesse ajudar à sustentabilidade financeira do negócio. A localização parece interessante, embora só lá tenha chegado com GPS, uma vez que não conhecia Vila do Conde. O café insere-se num conjunto urbano à beira mar muito interessante, com um porto e edificado patrimonial muito típico. Mas como era noite não deu para ter uma visão mais ampla. Gostei da nau que por lá atracava e do ambiente naval histórico quando atravessei de carro a cidade, perto do AJeqaGsE. 


Em jeito de resumo, foi muito bom rever a Dina e o Manuel, e conhecer o seu pequeno, no seu ambiente e ver que o seu projeto está a correr bem. Demonstraram-nos que, quando há paixão por algo os projetos podem vingar, que não é só uma questão de acreditar, mas principalmente: de ter conhecimento do que se pretende fazer e da capacidade de planeamento e concretização. Eu diria que isso aprendemos também nos jogos que jogamos. 


autor: Micael Sousa

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

As duas gerações de gamers: antes e depois das redes sociais

Há uma sensação que me foi ficando perante a dinâmica e a comunidade do hobby, mas sobre a qual só agora me pareceu apropriado escrever algo. Parece-me que existem duas gerações de jogadores de hobby em Portugal. Podem existir mais, mas estas duas saltam-me à vista. Tenho a sensação de que existem os gamers que surgiram antes da proliferação das redes sociais e os gamers depois da proliferação destas. Os gamers que usavam o “Abre o Jogo” (AoJ) como principal veículo de comunicação e os que agora usam principalmente as redes sociais, especialmente Facebook. Se o AoJ já não é o que era, como referência, porque o modo de usar a internet mudou, provavelmente os gamers também estão a mudar porque são de outra geração.



Tentando identificar uma data para conseguir separar isto, talvez o ano de 2010 seja uma referência a ter em conta, embora o ano de 2015 também tenha tido alguma importância, pois foi aquela data em que a Leiriacon cresceu e começou a ganhar uma escala maior e a receber mais público que a ela se deslocava por mera curiosidade, para além do ditos gamers mais experientes que continuam a ser os participantes maioritários. Em alguma bibliografia, tal como o livro “It´s all a game: from monopoly to settlers of Catan”, de Tristan Donovan, publicado em 2017, somos levados a concluir que o final da primeira década do século XXI marcou o início de uma era em que os jogos de tabuleiro de hobby ganharam novos públicos, mais abrangentes, disseminados para uma comunidade maior a partir dos polos académicos e tecnológicos. Conhecem-se casos de “Settlers of Catan” ser uma “trend”, uma tendência, em Silicon Valley bastante bem conhecido nesse período de 2009/2010. 

Existem em Portugal gamers com um conhecimento enorme sobre jogos de hobby, de todos os géneros. No entanto, estes gamers, tendencialmente do primeiro período, tendem a interagir pouco nas redes sociais, e assim com os novos gamers. Será que isto é verdade ou é apenas uma perceção pessoal? Partilham desta opinião? Já sentiram isto em algum momento? Eu tenho sentido isso, especialmente como criador de conteúdos. Por vezes fica-me a sensação que sei muito pouco perante outros jogadores de hobby mais antigos. 

Tenho sentido também uma busca crescente por conhecimento por parte dos novos gamers, que me parecem ser mais abertos a interações que os gamers mais antigos, muito embrenhados nas relações pessoais que têm cultivado ao longo dos anos com a comunidade de jogos. Do que tenho percecionado estes gamers mais experientes também são os que vão menos a encontros públicos e mais ficam por casa com os seus encontros privados com outros gamers do seu grupo de jogos. Isto pode ser uma perceção completamente enviesada pela minha experiência pessoal, pois não tenho dados quantitativos para suportar isto, no entanto é algo que deixo para discussão. No entanto, também se vendem muitos jogos para uso de quem não se assume este hobby como uma cultura e elementos de pertença a uma comunidade. Isto aconteceu comigo, quando entre 2002 e 2009/2010 apenas jogava “Settlers of Catan” com amigos, aqueles com quem depois fundamos os Boardgamers de Leiria e faço os vídeos no canal de youtube

Será então que existem mesmo duas gerações de gamers? Se existem como interagem, se é que interagem de todo? Outra coisa que me intriga é que houve alguns projetos de gamers mais antigos de produção de conteúdos que depois pararam de produzir, parecendo não ter acompanhado o crescimento notório do hobby. Com isso esse espaço vazio passou a ser ocupado cada vez mais por gamers da segunda fase. Como são estes novos gamers que comunicam mais com a comunidade de hobby online? Será estamos apenas a passar mensagens de quem está no hobby há pouco tempo? Pode isso ter um efeito na cultura da comunidade, de como ela se vê e identifica? Será que temos duas comunidades e não apenas uma? Haverá tipos de jogos que são mais jogados por uma geração do que por outra? Podem os gamers mais experientes ajudar os novos gamers e novos criadores de conteúdos.

Pessoalmente entrei no hobby um pouco entre estas duas gerações, sendo que já jogava jogos de cartas colecionáveis em meados dos anos 90, e depois fui conhecendo outros pontualmente, mas sem grande abrangência ou profundidade. Por me ter escapado um período temporal grande do hobby também fico com receio de estar a dizer algum tipo de alarvidade quando produzo algum tipo de conteúdo, mas encaro isso como um risco necessário e inevitável do processo de aprendizagem.

Chegando ao fim deste texto, concluso que acabei por deixar muito mais perguntas que respostas. Pode ser que me ajudem a chegar a conclusões, apesar de eu não apreciar muito jogos colaborativos

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Vocês são elitistas e snobs? - Opinião por Micael Sousa

Se és um boardgamer de elite estás a ler isto, provavelmente estás no blogue errado, porque eu nem sei assim tanto de jogos de tabuleiro para estar ao teu nível. Estou a brincar, porque o elitista aqui sou eu, ou pelo menos há quem possa pensar isso. Mas afinal o que é isso dos elitistas nos jogos de tabuleiro? São jogadores que só jogam com determinadas pessoas, só determinados jogos, só com determinadas condições ambientais? São jogadores de sangue azul quer herdaram da sua linhagem o gosto por eurogames ou wargames pesados, 18xx talvez?


Lamento informar-vos, mas vocês são elitistas porque são jogadores de hobby. São elitistas porque jogam jogos de hobby que só os jogadores de hobby os jogam como vocês, como atividade regular de passatempo que vos dá prazer. Tal como vos dá satisfação também vos exige alguma dedicação e foco, mesmo que joguem jogos mais rápidos e simples. Implica sempre algum esforço, aprendizagem e disponibilidade, mais do que despendem os jogadores casuais. Nisto até podem ser colecionares, sendo isso por si só uma atividade.

Em qualquer hobby é normalíssimo que umas pessoas o aprofundem mais que outras, em tempo, dinheiro e conhecimento. Tudo normal, tudo semelhante a tantos outros hobbies. No entanto, no caso do hobby dos jogos de tabuleiro geram-se o fenómeno de snobismo ou elitismo, carregados de conotação negativa. Mas porque será? Não seria de esperar que esse aprofundamento fosse uma coisa boa? Ou seja, os membros dessa elite não deveriam, supostamente, saber mais do assunto, jogar melhores jogos, desfrutar mais deste mundo? Não deveria ser um refinamento positivo? No entanto, parece que não é bem assim, provavelmente porque este hobby entra em constantes conflitos com quem joga de forma casual, podendo jogar alguns jogos de hobby mas sem transformar isso num hobby formal. 

Por isso os boardgame elitistas tendem a desprezar quem apenas joga os jogos mais simples de modo casual e os compara com os produtos mais complexos e desenvolvidos, como se fossem apenas outros jogos. Tal como os jogadores mais casuais, que tendem jogar apenas as coisas mais simples, desprezam que se diverte apenas como os outros jogos mais complexos e longos, aqueles para os quais não têm paciência porque são jogos como os outros que apenas dão mais trabalho a perceber e tempo a jogar. Como ambos os grupos, jogadores de elite e jogadores casuais, tiram prazer da sua forma de jogar, tendem a entrar em conflito. Muitas vezes comparam o incomparável. 

Noutro hobby qualquer, provavelmente porque os desconheço, parece-me não haver esta tendência em ver o aprofundamento no próprio hobby como elitismo negativo. É sempre elitismo, mas parece ser um tipo de elitismo que gera admiração e um exemplo de qualidade. Nos jogos de tabuleiro parece haver uma certa tendência para se tentar diminuir quem opta por ir mais longe, quer seja por ser um grande jogador, um designer, um colecionador ou um organizador de atividades ou produtor de conteúdos. Assim quem se insere na elite tende a humilhar os demais jogadores e quem não atinge os critérios definidos pela elite tende denegrir as elites pelo seu snobismo em retaliação. 

De notar que estes jogos são um hobby porque geram uma comunidade e uma cultura. São então construções sociais, que tendem a replicar outras formas de construção sociais mais antigas e estabelecidas, muitas com hierarquias, valores e níveis de desenvolvimento desiguais. 

Tendo em conta tudo o que tenho investido neste hobby – que até já deixou de ser um mero passatempo - não tenho problema em assumir que isso gera forçosamente algum elitismo em mim. Como poderia ser de outra forma? Ainda para mais quando os jogos de tabuleiro, quando levados mais a sério, tendem a ser associados a desenvolvimento intelectual e cognitivo? Esse elitismo é imposto pela própria sociedade. Quantas vezes me disseram em ações de desenvolvimento e lançamento de projetos de utilização de jogos que isso era uma atividade de elites mesmo sem saberem o nível de complexidade que alguns jogos de tabuleiro contemporâneos atingem, tanto a baixa como a alta complexidade! Já lhes perdi a conta! 

Em jeito de resumo, o que se deve evitar é a arrogância, e tentar explicar o porquê das nossas opções, mais complexas ou não. Isto porque em parte queremos que o hobby cresça, e quem gosta de jogos mais complexos e naturalmente mais difíceis de jogar, tem sempre a esperança de fazer algumas evangelizações. No entanto, na era do politicamente correto, sucumbimos à pressão para dizer o que é certo e neutro, de nos restringirmos até a fazer humor, porque tudo e todos são imensamente suscetíveis, onde se incluem os jogos mais medíocres e seus apaixonados. Da minha parte cá estarei para tentar atingir a elite, mesmo que a elite não me reconheça, ou não vivêssemos na era do pós-modernismo em que cada um se reconfigura como quiser enquanto define os seus monopólios.

Autor: Micael Sousa
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