sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Uma visita ao boardgame café: A Jogar é que a Gente se Entende

Finalmente consegui ir ao boardgame Café “A Jogar é que a Gente se Entende” (AJeqaGsE). Foi preciso quase um ano para conseguir rumar até Vila do Conde e desfrutar deste magnifico espaço. O AJeqaGsE não é o primeiro boardgame café do país, pois podemos considerar que outros o tenham precedido, como por exemplo o Pow Wow em Lisboa - outro local que ainda estou por visitar. E pelo que me constou há mais uns locais onde se pode jogar que poderiam ser considerados como tal também, mais nuns aspetos que noutros. 


No entanto o AJeqaGsE é uma novidade pelo modo diferente como juntou o jogar e o estar num café, e enquadra-se mais naquilo que encontramos nos boardgame cafés dessa europa fora, presentes em quase todas as grandes cidades. Tendem a ser espaços pensados propositadamente para esse fim, com decoração e ambientes muito próprios, muito descontraídos e confortáveis, onde as pessoas estão no centro do negócio, até mais que os próprios jogos. Nesses espaços ficamos com sensação de que estamos em casa, numa sala de estar de um amigo com bom gosto por decoração de interiores, em que os jogos são elementos participantes do ambiente e decoração. Já fui a vários, especialmente na zona de Paris, e o AJeqaGsE não fica nada atrás deles, muito pelo contrário. Posso dizer, com segurança, que foi dos melhores onde já estive até hoje, tendo estado já em espaços deste tipo em Paris, Barcelona, Bruxelas, Londres, Orleães e Bucareste. De todos o AJeqaGsE foi mesmo aquele onde me senti melhor, mas também se percebe porquê. Em nenhum dos outros conhecia os proprietários e não se falava português, o que facilita muito – temos de admitir. A nossa cultura portuguesa sente-se e ajuda a acolher mesmo de forma passiva. Foi tão fácil encontrar pessoas para fazer uma partida. Apesar de ir sem muito tempo ainda deu para jogar um Via Nebula, com o Vinicius, Rita e Hugo, até então desconhecidos para mim, mas que fiquei imediatamente em ligação através das redes sociais, que é uma facilidade hoje em dia ao dispor da nossa comunidade de hobby – muito importante para nos mantermos ligados a esta paixão pelos jogos. 


Então, no AJeqaGsE vão encontrar uma impressionante oferta de jogos que podem experimentar, com pessoas que vos podem ajudar a jogar. Vão ter comida caseira e diferenciada - o Hamburger que comi estava excelente. Entre bolos e outras bebidas, vão poder provar várias cervejas artesanais – o que para mim é perfeito porque sou um apreciador de cerveja diferenciada. Os preços não são exagerados, porque não se esqueçam que estão a pagar também a experiência, os jogos e todo o conhecimento necessário para que tudo aquilo funcione. Em Portugal temos por hábito desconsiderar essas coisas, mas se não as pagarmos não há projeto que possa sobreviver – está na altura de começar a pagar as coisas imateriais também. É um pouco como a produção de conteúdos sobre jogos de tabuleiro, eles só podem melhorar com apoio dos interessados – porque custa sempre tempo e dinheiro. Quanto ao espaço, o AJeqaGsE não é gigante, é aconchegante e acolhedor, se fosse maior provavelmente perderia esse encanto. No entanto imagino que ter mais mesas pudesse ajudar à sustentabilidade financeira do negócio. A localização parece interessante, embora só lá tenha chegado com GPS, uma vez que não conhecia Vila do Conde. O café insere-se num conjunto urbano à beira mar muito interessante, com um porto e edificado patrimonial muito típico. Mas como era noite não deu para ter uma visão mais ampla. Gostei da nau que por lá atracava e do ambiente naval histórico quando atravessei de carro a cidade, perto do AJeqaGsE. 


Em jeito de resumo, foi muito bom rever a Dina e o Manuel, e conhecer o seu pequeno, no seu ambiente e ver que o seu projeto está a correr bem. Demonstraram-nos que, quando há paixão por algo os projetos podem vingar, que não é só uma questão de acreditar, mas principalmente: de ter conhecimento do que se pretende fazer e da capacidade de planeamento e concretização. Eu diria que isso aprendemos também nos jogos que jogamos. 


autor: Micael Sousa

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

As duas gerações de gamers: antes e depois das redes sociais

Há uma sensação que me foi ficando perante a dinâmica e a comunidade do hobby, mas sobre a qual só agora me pareceu apropriado escrever algo. Parece-me que existem duas gerações de jogadores de hobby em Portugal. Podem existir mais, mas estas duas saltam-me à vista. Tenho a sensação de que existem os gamers que surgiram antes da proliferação das redes sociais e os gamers depois da proliferação destas. Os gamers que usavam o “Abre o Jogo” (AoJ) como principal veículo de comunicação e os que agora usam principalmente as redes sociais, especialmente Facebook. Se o AoJ já não é o que era, como referência, porque o modo de usar a internet mudou, provavelmente os gamers também estão a mudar porque são de outra geração.



Tentando identificar uma data para conseguir separar isto, talvez o ano de 2010 seja uma referência a ter em conta, embora o ano de 2015 também tenha tido alguma importância, pois foi aquela data em que a Leiriacon cresceu e começou a ganhar uma escala maior e a receber mais público que a ela se deslocava por mera curiosidade, para além do ditos gamers mais experientes que continuam a ser os participantes maioritários. Em alguma bibliografia, tal como o livro “It´s all a game: from monopoly to settlers of Catan”, de Tristan Donovan, publicado em 2017, somos levados a concluir que o final da primeira década do século XXI marcou o início de uma era em que os jogos de tabuleiro de hobby ganharam novos públicos, mais abrangentes, disseminados para uma comunidade maior a partir dos polos académicos e tecnológicos. Conhecem-se casos de “Settlers of Catan” ser uma “trend”, uma tendência, em Silicon Valley bastante bem conhecido nesse período de 2009/2010. 

Existem em Portugal gamers com um conhecimento enorme sobre jogos de hobby, de todos os géneros. No entanto, estes gamers, tendencialmente do primeiro período, tendem a interagir pouco nas redes sociais, e assim com os novos gamers. Será que isto é verdade ou é apenas uma perceção pessoal? Partilham desta opinião? Já sentiram isto em algum momento? Eu tenho sentido isso, especialmente como criador de conteúdos. Por vezes fica-me a sensação que sei muito pouco perante outros jogadores de hobby mais antigos. 

Tenho sentido também uma busca crescente por conhecimento por parte dos novos gamers, que me parecem ser mais abertos a interações que os gamers mais antigos, muito embrenhados nas relações pessoais que têm cultivado ao longo dos anos com a comunidade de jogos. Do que tenho percecionado estes gamers mais experientes também são os que vão menos a encontros públicos e mais ficam por casa com os seus encontros privados com outros gamers do seu grupo de jogos. Isto pode ser uma perceção completamente enviesada pela minha experiência pessoal, pois não tenho dados quantitativos para suportar isto, no entanto é algo que deixo para discussão. No entanto, também se vendem muitos jogos para uso de quem não se assume este hobby como uma cultura e elementos de pertença a uma comunidade. Isto aconteceu comigo, quando entre 2002 e 2009/2010 apenas jogava “Settlers of Catan” com amigos, aqueles com quem depois fundamos os Boardgamers de Leiria e faço os vídeos no canal de youtube

Será então que existem mesmo duas gerações de gamers? Se existem como interagem, se é que interagem de todo? Outra coisa que me intriga é que houve alguns projetos de gamers mais antigos de produção de conteúdos que depois pararam de produzir, parecendo não ter acompanhado o crescimento notório do hobby. Com isso esse espaço vazio passou a ser ocupado cada vez mais por gamers da segunda fase. Como são estes novos gamers que comunicam mais com a comunidade de hobby online? Será estamos apenas a passar mensagens de quem está no hobby há pouco tempo? Pode isso ter um efeito na cultura da comunidade, de como ela se vê e identifica? Será que temos duas comunidades e não apenas uma? Haverá tipos de jogos que são mais jogados por uma geração do que por outra? Podem os gamers mais experientes ajudar os novos gamers e novos criadores de conteúdos.

Pessoalmente entrei no hobby um pouco entre estas duas gerações, sendo que já jogava jogos de cartas colecionáveis em meados dos anos 90, e depois fui conhecendo outros pontualmente, mas sem grande abrangência ou profundidade. Por me ter escapado um período temporal grande do hobby também fico com receio de estar a dizer algum tipo de alarvidade quando produzo algum tipo de conteúdo, mas encaro isso como um risco necessário e inevitável do processo de aprendizagem.

Chegando ao fim deste texto, concluso que acabei por deixar muito mais perguntas que respostas. Pode ser que me ajudem a chegar a conclusões, apesar de eu não apreciar muito jogos colaborativos

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Vocês são elitistas e snobs? - Opinião por Micael Sousa

Se és um boardgamer de elite estás a ler isto, provavelmente estás no blogue errado, porque eu nem sei assim tanto de jogos de tabuleiro para estar ao teu nível. Estou a brincar, porque o elitista aqui sou eu, ou pelo menos há quem possa pensar isso. Mas afinal o que é isso dos elitistas nos jogos de tabuleiro? São jogadores que só jogam com determinadas pessoas, só determinados jogos, só com determinadas condições ambientais? São jogadores de sangue azul quer herdaram da sua linhagem o gosto por eurogames ou wargames pesados, 18xx talvez?


Lamento informar-vos, mas vocês são elitistas porque são jogadores de hobby. São elitistas porque jogam jogos de hobby que só os jogadores de hobby os jogam como vocês, como atividade regular de passatempo que vos dá prazer. Tal como vos dá satisfação também vos exige alguma dedicação e foco, mesmo que joguem jogos mais rápidos e simples. Implica sempre algum esforço, aprendizagem e disponibilidade, mais do que despendem os jogadores casuais. Nisto até podem ser colecionares, sendo isso por si só uma atividade.

Em qualquer hobby é normalíssimo que umas pessoas o aprofundem mais que outras, em tempo, dinheiro e conhecimento. Tudo normal, tudo semelhante a tantos outros hobbies. No entanto, no caso do hobby dos jogos de tabuleiro geram-se o fenómeno de snobismo ou elitismo, carregados de conotação negativa. Mas porque será? Não seria de esperar que esse aprofundamento fosse uma coisa boa? Ou seja, os membros dessa elite não deveriam, supostamente, saber mais do assunto, jogar melhores jogos, desfrutar mais deste mundo? Não deveria ser um refinamento positivo? No entanto, parece que não é bem assim, provavelmente porque este hobby entra em constantes conflitos com quem joga de forma casual, podendo jogar alguns jogos de hobby mas sem transformar isso num hobby formal. 

Por isso os boardgame elitistas tendem a desprezar quem apenas joga os jogos mais simples de modo casual e os compara com os produtos mais complexos e desenvolvidos, como se fossem apenas outros jogos. Tal como os jogadores mais casuais, que tendem jogar apenas as coisas mais simples, desprezam que se diverte apenas como os outros jogos mais complexos e longos, aqueles para os quais não têm paciência porque são jogos como os outros que apenas dão mais trabalho a perceber e tempo a jogar. Como ambos os grupos, jogadores de elite e jogadores casuais, tiram prazer da sua forma de jogar, tendem a entrar em conflito. Muitas vezes comparam o incomparável. 

Noutro hobby qualquer, provavelmente porque os desconheço, parece-me não haver esta tendência em ver o aprofundamento no próprio hobby como elitismo negativo. É sempre elitismo, mas parece ser um tipo de elitismo que gera admiração e um exemplo de qualidade. Nos jogos de tabuleiro parece haver uma certa tendência para se tentar diminuir quem opta por ir mais longe, quer seja por ser um grande jogador, um designer, um colecionador ou um organizador de atividades ou produtor de conteúdos. Assim quem se insere na elite tende a humilhar os demais jogadores e quem não atinge os critérios definidos pela elite tende denegrir as elites pelo seu snobismo em retaliação. 

De notar que estes jogos são um hobby porque geram uma comunidade e uma cultura. São então construções sociais, que tendem a replicar outras formas de construção sociais mais antigas e estabelecidas, muitas com hierarquias, valores e níveis de desenvolvimento desiguais. 

Tendo em conta tudo o que tenho investido neste hobby – que até já deixou de ser um mero passatempo - não tenho problema em assumir que isso gera forçosamente algum elitismo em mim. Como poderia ser de outra forma? Ainda para mais quando os jogos de tabuleiro, quando levados mais a sério, tendem a ser associados a desenvolvimento intelectual e cognitivo? Esse elitismo é imposto pela própria sociedade. Quantas vezes me disseram em ações de desenvolvimento e lançamento de projetos de utilização de jogos que isso era uma atividade de elites mesmo sem saberem o nível de complexidade que alguns jogos de tabuleiro contemporâneos atingem, tanto a baixa como a alta complexidade! Já lhes perdi a conta! 

Em jeito de resumo, o que se deve evitar é a arrogância, e tentar explicar o porquê das nossas opções, mais complexas ou não. Isto porque em parte queremos que o hobby cresça, e quem gosta de jogos mais complexos e naturalmente mais difíceis de jogar, tem sempre a esperança de fazer algumas evangelizações. No entanto, na era do politicamente correto, sucumbimos à pressão para dizer o que é certo e neutro, de nos restringirmos até a fazer humor, porque tudo e todos são imensamente suscetíveis, onde se incluem os jogos mais medíocres e seus apaixonados. Da minha parte cá estarei para tentar atingir a elite, mesmo que a elite não me reconheça, ou não vivêssemos na era do pós-modernismo em que cada um se reconfigura como quiser enquanto define os seus monopólios.

Autor: Micael Sousa

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Uma visita à Devir em Barcelona e às lojas locais - Opinião por Micael Sousa

Como o meu ego é pequeno e humilde achei normalíssimo que a Devir me tenha convidado para ir a Barcelona. Pensei – “finalmente a minha genialidade é reconhecida!”. Depois apercebi-me que todos os criadores de conteúdos vídeo sobre jogos de tabuleiro modernos em Portugal, que falam em português, seriam convidados. Então desci à terra… Agora a sério! Achei o convite muito simpático e motivador. Uma honra também porque conheço todos os restantes convidados e estar entre eles é prestigiante. Ao fazer isto a Devir dá-nos um mimo. Podendo ser interpretada por alguns como uma tentativa de nos comprar, o Ricardo teve o cuidado por referir que era um reconhecimento do nosso trabalho nesta área ainda tão informal e alimentado por mera paixão. 


Mas todas as paixões têm de ser alimentadas para não morrerem. O meu receio neste nosso hobby e atividade é que as paixões esmoreçam antes de conseguirmos produzir coisas com real qualidade. Em jeito de autocritica, basta ver os vídeos que fiz há um ano no nosso canal de youtube e ver a diferença perante o que se faz agora. Mais experiência, melhor equipamento, mais noção de como editar. A rede de seguidores crescente gera mais oportunidades de interação que melhoram aquilo que é um conteúdo fruto da comunicação bidirecional. Haver mais pessoas com a disponibilidade para comentar é sinal de que o que se faz está a gerar impacto. 

Então o convite da Devir consistiu em conhecer os escritórios de Barcelona, onde se testam jogos, trata da comunicação, outros aspetos de apoio à atividade da empresa e da criação de conteúdos para os canais de comunicação da Devir na península Ibérica. E foi com esse propósito que lá fui, para participar na Devir News, na apresentação e análise de alguns jogos. De notar que não aprecio todos os jogos de tabuleiro e claro que, logicamente, nem todos os jogos da Devir também. Como não fui eu que escolhi os jogos a abordar haveria sempre o perigo de surgir algum dos que não aprecio. Surgiu um desses, o que obrigou a ainda mais cuidado na análise. Tentei ser isento, reconhecer as caraterísticas e o público-alvo que poderá apreciar o jogo. Depois podem ver o vídeo, se tiverem para aí virados, e tentar adivinhar qual é. Avisei previamente o Ricardo Gomes, que foi o anfitrião desta visita, que não iria dizer que gosto de um jogo somente por isso ser filmado. Ao que o Ricardo me respondeu – “Nem esperávamos outra coisa”. Isto facilita muito, porque se queremos continuar a fazer conteúdos devemos ser coerentes com o nosso estilo de comunicação e preferências. Seria muito estranho se eu recomendasse, por exemplo, jogos do tipo " rolar e mover" (“Roll and Move”) com mais de 50 anos, se é que percebem o que estou a dizer. Com isto não estou a dizer que a minha credibilidade é relevante para o hobby. Claramente não é, estou longe de ter uma importância a esse nível e não creio que os criadores de conteúdos em Portugal já tenham essa capacidade, pois a maioria dos gamers ignora-nos, o que se calhar até é bom para podermos ir crescendo e melhorando. 


Dos escritórios da Devir ficou-me a sensação de um ambiente descontraído e jovem, com jogos em montes por todo o lado, muitos de lançamentos que a editora provavelmente fará no futuro. Impressionou-me a quantidade de títulos de jogos muito conhecidos editados em Espanha, o que remete para a noção de um mercado muito mais desenvolvido que em Portugal, onde se podem editar jogos mais pesados e com mais substância. Espero que Portugal um dia chegue lá. Achei imensa piada aos cartazes de jogos afixados na parede, devidamente protegidos com vidro. Ali os jogos de tabuleiro eram coisas sérias.


Voltando a Barcelona. Lá filmamos o Devir News. Pude também apreciar o Ricardo a trabalhar nos tutoriais. Tirei umas notas para os meus próprios vídeos. Nota-se que há ali uma naturalidade, com algum treino à mistura, para explicar com clareza e sequencia lógica os jogos. Depois fomos dar uma volta por Barcelona. A minha prioridade eram as lojas geeks e de jogos de tabuleiro! Para mim um programa perfeito, e que gosto de fazer depois de conhecer o património e cultura local, que no caso de Barcelona já não era novidade, também porque é uma daquelas cidades que muito falamos nas aulas de planeamento.


Entramos na Jugar x Jugar, que tem uma boa oferta de jogos, com jogos leves, médios e médios pesados. Depois seguimos para a FriQuest, um espaço mais geek, onde de jogos só havia mais de uma dezena de versões do Monopoly. Claramente uma loja que vale por tudo o resto, menos pelos jogos. Depois seguimos para a melhor de todas, para a Karubi Rol & Games. Esta é uma das maiores lojas que vi do género até hoje. Tinha uma oferta muito considerável de jogos, de todos os tipos, complexidades e géneros. No entanto, nem nesta nem na Jugar x Jugar, não se encontravam aquelas preciosidades mais pesadas e raras do mundo do hobby. Provavelmente reflete a realidade do mercado espanhol, mas agora estou apenas a especular. Seja em que sitio do mundo for, não é fácil encontrar lojas com isso. 


No entanto, esta Karubi tinha uma impressionante oferta de jogos e a preços bem simpáticos, ao ponto de ter comprado uma versão especial, com as expansões, do Gold West para mim e uma edição mini do Trier auf Trier para a minha pequena. Para quem não saiba sou uma espécie de colecionar também. Por pouco não veio também o Manhattan Project: Energy Empire, ou não fosse fã de jogos de alocação de trabalhadores, os worker placement. Nessa loja havia também um boardgame café. Como já havíamos andado imenso foi o momento de descansar e jogar. Fizemos uma partida de Honshu, um jogo que tenho há imenso tempo na minha ludoteca para experimentar, e outra de Yantze, editado em Portugal pela Devir com o nome Lanterns, jogo que também nunca tinha experimentado. Não são bem o tipo de jogos que habitualmente levo à mesa, mas naquele contexto eram os jogos perfeitos para jogar. Curiosamente até ganhei a segunda partida ao Ricardo. Fiquei com a ideia que ele me deixou ganhar… 


Saídos da Karubi ainda passamos na loja geek ao lado, pela Norma Comics, que é imensamente grande e com produtos fascinantes no universo geek. Não pude evitar trazer uma t-shirt do Batman. Fazia-se tarde e lá fomos a pé rumo ao mar. Todo este percurso foi muito interessante, pelo ambiente urbano especial de Barcelona, e porque deu para conversar muito com o Ricardo que foi um excelente anfitrião. Falámos de mecânicas de jogos, da realidade nacional e da tendência do desenvolvimento jogos de tabuleiro nos vários países. Fiquei também a saber mais sobre o aspeto competitivo dos jogos de tabuleiro modernos, mundo que ignoro porque sempre me interessou mais a parte social e criativa do hobby. 

Enquanto esperávamos pelo avião tentei pregar uma partida ao Ricardo sobre o Carcassone, mas o rapaz safou-se bem. Acabamos por fazer um abri da caixa do Optimus, que é como quem diz o Ganz schön Clever, na edição portuguesa da Devir. Seguramente que quem estava ao lado achou tudo aquilo bastante estranho.


Aproveito para deixar então o agradecimento à Devir e ao Ricardo Gomes por esta experiência, pela simpatia e total liberdade em que foi realizada esta aventura por Barcelona.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Os criadores de conteúdos e o SPAM! - Opinião por Micael Sousa

Ao analisar os vários canais de Youtube e a produção de conteúdos em vídeo, mas não só, fica-me uma questão de fundo: será que aquilo que fazemos tem alguma relevância? Por termos umas quantas visualizações nos vídeos, que por vezes até podem passar do milhar, como acontece em alguns dos vídeos do Jogos no Tabuleiro – o canal de youtube, podemos ficar tentados a partir do princípio que temos importância. Confesso que sou um bocado cético quanto a isso, pelo menos para já.


Terão vídeos com dezenas de visualizações impacto? Fazem a diferença? Muitos criadores começam e desistem porque não atingem aquilo que imaginavam. Se pensavam em poder ter um saldo positivo entre o que investem e ganham, se é que algum dia podem ganhar algo com isto, podem ter de esperar muito tempo. Não me parece que o mercado esteja ainda nesse ponto. A esmagadora maioria das pessoas não faz ideia de que existem estes jogos. Tenho notado isso em muitas formações que tenho dado, cujos públicos até estão despertos para o uso de jogos em múltiplos contextos. Em todas aproveito para passar questionário, que provavelmente em breve pode dar origem a uma publicação sobre o assunto.

Vou também recebendo mensagens e comentários que são muito importantes para alimentar a motivação. Mas mesmo assim, apesar de ser um bom balsamo para o ego, duvido da força dos conteúdos, dos meus e dos outros. Se não fizermos isto por real paixão será dificil. Se não tivermos disponibilidade de tempo e de dinheiro para os equipamentos e compra de jogos então nada feito, pois as pessoas que até vão seguindo estão sempre a pedir mais qualidade no multimédia e a sugerir analisar o jogo X ou Y. É desta relação que se pode dar o crescimento, embora possa não ser sustentável.

Não faço ideia se com os vídeos e textos influencio alguém ou sequer contribuo para o crescimento da comunidade e do hobby de uma forma relevante, mas com a ânsia de ser visto e lido – que ocorre naturalmente porque todas as pessoas gostam de ver as suas atividades de comunicação reconhecidas – arrisco o spam! E eu faço tanto spam! Tento não fazer, mas como proceder para divulgar sem exagerar? As redes sociais são um dos principais modos de divulgação, especialmente nos grupos de Facebook para a realidade portuguesa. E todas as pessoas que criam conteúdos tentam usar esses canais, que tendem a ficar cheios de links para vídeos, quase sempre sem qualquer interação. Gostava de não ter de recorrer a isso, de existir outra forma de fazer a divulgação. No entanto, quando partilhamos nesses espaços os vídeos ganham imediatamente novas visualizações. Por isso somos impelidos a continuar neste ciclo de spam.

Nós que frequentamos estes espaços online e gostamos de jogos, mas que não gostamos todos dos mesmos jogos e podemos também não gostar de todos os criadores de conteúdos, que tendem a ter abordagens próprias e focarem-se num determinado tipo de jogo, resta-nos bloquear esses criadores?
Provavelmente já fui bloqueado a adicionado a listas a ignorar. No entanto não é essa rejeição que mais me preocupa particularmente, porque provavelmente mereço. O que me incomoda mais é que não exista outra força de partilhar bons conteúdos, porque, mesmo que ainda não tenhamos lá chegado, um dia teremos seguramente bom material online para promover os jogos de tabuleiro ditos modernos em Portugal e em português.

Autor: Micael Sousa

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Sabemos o que são mecânicas de jogos de tabuleiro?

Se há palavra que utilizamos muito quando falamos de jogos de tabuleiro, e pretendemos fazer uma abordagem mais analítica, trata-se do termo "mecânica". Este jogo tem esta mecânica, aquele tem outras. Gosto destas mecânicas e não gosto daquelas. Neste jogo as mecânicas não foram bem implementadas, e naquele não, etc, etc e tal. 

A propósito disso fiz um texto mais formal sobre análise de alguma bibliografia sobre esse assunto para um outro blogue, que podem ver em mais detalhe aqui. Mas em jeito de resumo podemos concluir que a bibliografia e os estudos que se têm deito sobre mecânicas de jogos, quer sejam digitais ou não, depois não coincide com os termos que utilizamos no hobby. Podemos fazer paralelismos, mas por vezes os termos confundem-se. Qual a razão disso?



Por exemplo: a gestão/aquisição de conjuntos (set collection) e o controlo de área (área control) são mecânicas ou objetivos? No hobby usamos estes termos como mecânicas, disso não há dúvida, mas será correto? Em última instância, grande parte das mecânicas são apenas ação seleção, o que nos traz ainda mais problemas de análise. 

A primeira explicação para este fenómeno pode estar relacionada com o simples facto do mundo dos jogos de tabuleiro modernos ainda ser uma área muito experimental sem estruturas formais de investigação e estudo do fenómeno (sem frameworks). Não existem muitas investigações e os designers quase sempre criam os seus jogos de forma empírica, experimental, com base nos conhecimentos que vão recolhendo de forma muito pessoal e, por vezes, pouco ou nada estruturada. A tentativa erro é um dos principais métodos, e mesmo nos jogos mais determinísticos não tenho conhecimento, por exemplo, da aplicação de métodos de otimização, resolução de sistemas e apoio à decisão para construir um jogo equilibrado. Na pratica, no design de jogos de tabuleiro modernos, isso atinge-se por testes reais com utilizadores. Com isto não estou a dizer que tem de se definir um modelo prévio para construir um jogo. Isso seria inviável porque exigiria profundos conhecimentos técnicos, e, provavelmente, porque iria retirar grande parte da diversão e entusiasmo de construir um jogo de forma experimental. Desenhar um jogo dessa forma é quase um jogo em si mesmo. Mas isso é apenas a minha perceção, porque ainda não construi nenhum jogo, apesar de ter simulado alguns com modelos de otimização e estar a entrar formalmente nos "game studies" (estudos dos jogos).

Outra possível razão para haver estas confusão entre mecânicas, que teoricamente são aqueles elementos pelos quais os jogadores interagem com os elementos do jogo, com as regras e com os demais jogadores, pode estar relacionada com a própria natureza dos Jogos de tabuleiro modernos. Estes jogos caracterizam-se por modelos simplificados que tentam simular realidades de forma divertida, reduzindo ao máximo a complexidade mas garantindo profundidade e significado para a dinâmica, que se faz através de componentes físicos, realmente "mecânicos", no sentido clássico do termo. 

Fica então esta primeira reflexão, num texto propositadamente informal, que tem como objetivo gerar debate e recolher mais opiniões e perceções entre a comunidade do hobby. 

Autor: Micael Sousa

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Andar a incomodar os outros com jogos de tabuleiro - opinião por Micael Sousa

Há coisas irritantes, são tantas que este texto podia levar a qualquer lado. Mas como aqui o foco são os jogos de tabuleiro, é nisso que me vou centrar. E é também esse excesso de foco e centralização de atenção que me impele a escrever este texto. 


Este passatempo dos jogos de tabuleiro modernos pode ser excessivamente imersivo. Podemos facilmente cair no excesso, especialmente quando ao hobby associamos outras coisas: intervenção social, voluntariado e até oportunidades profissionais. O problema é mais grave surge quando não nos damos conta disto. Podemos facilmente só pensar e falar nisto. Depois os outros que nos aturem. A situação torna-se ainda mais caricata e gravosa, devido às características dos próprios jogos, porque não são do conhecimento geral e existem muitas ideias pré-concebidas erradas. A maioria das restantes pessoas não fazem ideia do que são estes jogos. 

Como os jogos de tabuleiro modernos fascinam quem os aprecia, é assim com quase todos os passatempos. São altamente imersivos na dinâmica de jogo e na comunidade que criam. Neste caso, porque são atividades sociais, somos impelidos a evangelizar. Mas isso pode tornar-nos chatos, aborrecidos e até insuportáveis para os outros não jogadores de mesa. 

Por vezes fico com a sensação de que falo demais sobre jogos de tabuleiro. É um risco constante estar sempre a falar deles, e tentar metê-los e aplicá-los a múltiplos, projetos e situações. Consegui fazer coisas surpreendentes, que jamais imaginei há uns anos. No entanto fica-me sempre aquela sensação de estar a ser um grande chato. Já sentiram isso alguma vez?
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