domingo, 3 de novembro de 2019

Equilibrar a vida pessoal e familiar com o hobby dos jogos de tabuleiro modernos

Já jogo regularmente jogos de mesa de hobby há uns anos. Joguei várias coisas, tendo começado pelos jogos de cartas colecionáveis por volta de 1996, mais coisa menos coisa. Cheguei a jogar vários mas foi ao Magic: The Gathering (MTG) que me dediquei. O jogo exigia tempo, para conhecer as novas cartas, para desenhar baralhos e testa-los, fazer todo o processo de trocas e negociação, tal como a competição em torneios e afins. Havia uma comunidade de pessoas que se juntavam para jogar mas muito também simplesmente para debater e conversar o hobby em si. Era verdadeiramente um jogo de hobby, apesar de ser desenhado por um autor conhecido (Richard Garfield) e produzido e distribuído por uma grande empresa da área (Wizards of the Coast) na altura. Com isto surgiam novas amizades que concorriam com as demais, momentos de lazer e diversão que obrigavam a fazer opções. Já contei esta historia muitas vezes. Mas serve para introduzir aqui ao tema dos jogos de hobby e para relacionar com um artigo cientifico que li e merece ser referido.


Quando me iniciei nos jogos de tabuleiro modernos, depois de anos a jogar Catan de forma muito causal só mesmo com amigos, apercebi-me da dimensão deste mundo e acabei por adotar a mesma dedicação e abordagem que ao MTG, embora tenho deliberadamente ignorado todo o aspeto competitivo. Estes jogos proporcionavam-me o que sempre goste: uma atividade para animar ajuntamentos de pessoas, aprendizagem, desafios intelectuais, novidades de temas e mecânicas, tal como um colecionismo inegável para mim. Da Leiriacon, aos encontros mensais da Spiel Portugal foi um processo natural e quase casual, com o importante marco que foi a fundação dos Boardgamers de Leiria, então já de forma deliberada e intencional, com a esperança de no futuro haver realmente uma comunidade e hobby forte com condições para prosperar em Leiria. Hoje este hobby é central na minha vida. Sei que isto aconteceu ou irá acontecer com muitos dos potenciais leitores deste texto, quer seja nos vossos jogos em família e amigos, na vossa vertente de colecionador, nos grupos informais ou formais de boardgamers que criaram ou onde participam, no uso de jogos em contextos profissionais ou até como criadores de conteúdos. Mas há mais coisas na vida. Estranho, mas há! Há, acima de tudo, a nossa família e também os amigos, que, tal como já referi, podem entrar em concorrência com esta atividade de hobby. Todos sentimos isto de uma forma ou de outra, mas quando li artigo “Finding Time for Tabletop: Board Game Play and Parenting” que tomei total consciência disto.  

Voltando ao início para relacionar com o artigo. Eu tinha uma vida de (board)gamer antes de iniciar a minha vida profissional, mas também antes de constituir família. E houve um processo contínuo de aprofundamento do envolvimento no hobby e do aumento das responsabilidades familiares, especialmente quando nasceu o segundo filho. Felizmente, mas talvez não por acaso, a minha esposa também gosta de jogar, claramente não tanto quanto eu, mas aprecia bastante também alguns dos meus jogos preferidos, especialmente os eurogames económicos de gestão de recursos e motores de produção, com pouco agressão direta. Aquilo que foi durante algum tempo um passatempo nosso e de alguns amigos mais chegados, transformou-se e transferiu-se, em parte, para uma instituição: os Boardgamers de Leiria, no formato que hoje existe, depois com a participação de muitas mais pessoas que se foram identificando com a ideia. Este projeto começou a exigir cada vez mais tempo e dedicação, tal como a conjugação com a vida familiar, vida profissional e vida académica se complicava cada vez mais. Gerir tudo isto é quase um jogo em si mesmo. Estas vivências são abordadas no artigo que referi anteriormente, pois são situações que muitos gamers vivem. Com o aumento das responsabilidades familiares deixa de haver tempo para os jogos e abrem-se oportunidades para conflitos e frustrações de natureza vária. O artigo relata vários desses casos. Há casos de separações ou de pessoas que deixam o hobby, nem que seja pelo menos em pausa. Mas há casos de compatibilidade, de negociação entre conjugues que conseguem garantir alguma regularidade no hobby. Noutros exemplos há uma transferência, especialmente quando os filhos crescem, para a esfera familiar do tempo dedicado aos jogos. Os principais parceiros de jogo passam a ser os filhos. No entanto, esta solução não está isenta de problemas, porque, enquanto gamers, podemos perder um pouco do que era o nosso espaço individual que nos permitia escapar às rotinas do dia-a-dia. Já conheci gamers que fazem um grande esforço para que os filhos joguem com eles, podendo depois ter o efeito inverso na motivação dos jovens para jogar ao ponto de os saturar e nem quererem ouvir falar de jogos de tabuleiro. Por outro lado, há também quem evite levar os filhos para este mundo, salvaguardando-se da perda do seu espaço individual. Pessoalmente já conheci todo o tipo de casos destes. 

Parece-me que este assunto pode ser relevante, especialmente em Portugal, porque estamos numa fase decisiva do crescimento do hobby. Surgem cada vez mais grupos de boardgamers, autores que tentam criar os seus jogos, criadores de conteúdos e também que pretendam usar os jogos em contexto sério profissional. Tendo em conta que somos muito poucos ainda, apesar do crescente dinamismo, e que alguns destes projetos ainda dependem muito da carolice e obstinação de certas pessoas, se não se conseguir equilibrar a vida no hobby com a vida familiar podemos gerar situações insustentáveis para os envolvidos, que depois não trazem nada de bom para ninguém. Podemos entrar em situações em que pouco ou nada há fazer devido a um processo de autodestruição inconscientes, com vitimas além dos envolvidos num hobby que pode ser muito absorvente. Qual a vossa opinião sobre isto? Será um assunto relevante?

Referência: 
Rogerson, M. J., & Gibbs, M. (2018). Finding time for tabletop: Board game play and parenting. Games and Culture, 13(3), 280-300.

Autor: Micael Sousa

Sem comentários:

Publicar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...