segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Uma visita à Devir em Barcelona e às lojas locais - Opinião por Micael Sousa

Como o meu ego é pequeno e humilde achei normalíssimo que a Devir me tenha convidado para ir a Barcelona. Pensei – “finalmente a minha genialidade é reconhecida!”. Depois apercebi-me que todos os criadores de conteúdos vídeo sobre jogos de tabuleiro modernos em Portugal, que falam em português, seriam convidados. Então desci à terra… Agora a sério! Achei o convite muito simpático e motivador. Uma honra também porque conheço todos os restantes convidados e estar entre eles é prestigiante. Ao fazer isto a Devir dá-nos um mimo. Podendo ser interpretada por alguns como uma tentativa de nos comprar, o Ricardo teve o cuidado por referir que era um reconhecimento do nosso trabalho nesta área ainda tão informal e alimentado por mera paixão. 


Mas todas as paixões têm de ser alimentadas para não morrerem. O meu receio neste nosso hobby e atividade é que as paixões esmoreçam antes de conseguirmos produzir coisas com real qualidade. Em jeito de autocritica, basta ver os vídeos que fiz há um ano no nosso canal de youtube e ver a diferença perante o que se faz agora. Mais experiência, melhor equipamento, mais noção de como editar. A rede de seguidores crescente gera mais oportunidades de interação que melhoram aquilo que é um conteúdo fruto da comunicação bidirecional. Haver mais pessoas com a disponibilidade para comentar é sinal de que o que se faz está a gerar impacto. 

Então o convite da Devir consistiu em conhecer os escritórios de Barcelona, onde se testam jogos, trata da comunicação, outros aspetos de apoio à atividade da empresa e da criação de conteúdos para os canais de comunicação da Devir na península Ibérica. E foi com esse propósito que lá fui, para participar na Devir News, na apresentação e análise de alguns jogos. De notar que não aprecio todos os jogos de tabuleiro e claro que, logicamente, nem todos os jogos da Devir também. Como não fui eu que escolhi os jogos a abordar haveria sempre o perigo de surgir algum dos que não aprecio. Surgiu um desses, o que obrigou a ainda mais cuidado na análise. Tentei ser isento, reconhecer as caraterísticas e o público-alvo que poderá apreciar o jogo. Depois podem ver o vídeo, se tiverem para aí virados, e tentar adivinhar qual é. Avisei previamente o Ricardo Gomes, que foi o anfitrião desta visita, que não iria dizer que gosto de um jogo somente por isso ser filmado. Ao que o Ricardo me respondeu – “Nem esperávamos outra coisa”. Isto facilita muito, porque se queremos continuar a fazer conteúdos devemos ser coerentes com o nosso estilo de comunicação e preferências. Seria muito estranho se eu recomendasse, por exemplo, jogos do tipo " rolar e mover" (“Roll and Move”) com mais de 50 anos, se é que percebem o que estou a dizer. Com isto não estou a dizer que a minha credibilidade é relevante para o hobby. Claramente não é, estou longe de ter uma importância a esse nível e não creio que os criadores de conteúdos em Portugal já tenham essa capacidade, pois a maioria dos gamers ignora-nos, o que se calhar até é bom para podermos ir crescendo e melhorando. 


Dos escritórios da Devir ficou-me a sensação de um ambiente descontraído e jovem, com jogos em montes por todo o lado, muitos de lançamentos que a editora provavelmente fará no futuro. Impressionou-me a quantidade de títulos de jogos muito conhecidos editados em Espanha, o que remete para a noção de um mercado muito mais desenvolvido que em Portugal, onde se podem editar jogos mais pesados e com mais substância. Espero que Portugal um dia chegue lá. Achei imensa piada aos cartazes de jogos afixados na parede, devidamente protegidos com vidro. Ali os jogos de tabuleiro eram coisas sérias.


Voltando a Barcelona. Lá filmamos o Devir News. Pude também apreciar o Ricardo a trabalhar nos tutoriais. Tirei umas notas para os meus próprios vídeos. Nota-se que há ali uma naturalidade, com algum treino à mistura, para explicar com clareza e sequencia lógica os jogos. Depois fomos dar uma volta por Barcelona. A minha prioridade eram as lojas geeks e de jogos de tabuleiro! Para mim um programa perfeito, e que gosto de fazer depois de conhecer o património e cultura local, que no caso de Barcelona já não era novidade, também porque é uma daquelas cidades que muito falamos nas aulas de planeamento.


Entramos na Jugar x Jugar, que tem uma boa oferta de jogos, com jogos leves, médios e médios pesados. Depois seguimos para a FriQuest, um espaço mais geek, onde de jogos só havia mais de uma dezena de versões do Monopoly. Claramente uma loja que vale por tudo o resto, menos pelos jogos. Depois seguimos para a melhor de todas, para a Karubi Rol & Games. Esta é uma das maiores lojas que vi do género até hoje. Tinha uma oferta muito considerável de jogos, de todos os tipos, complexidades e géneros. No entanto, nem nesta nem na Jugar x Jugar, não se encontravam aquelas preciosidades mais pesadas e raras do mundo do hobby. Provavelmente reflete a realidade do mercado espanhol, mas agora estou apenas a especular. Seja em que sitio do mundo for, não é fácil encontrar lojas com isso. 


No entanto, esta Karubi tinha uma impressionante oferta de jogos e a preços bem simpáticos, ao ponto de ter comprado uma versão especial, com as expansões, do Gold West para mim e uma edição mini do Trier auf Trier para a minha pequena. Para quem não saiba sou uma espécie de colecionar também. Por pouco não veio também o Manhattan Project: Energy Empire, ou não fosse fã de jogos de alocação de trabalhadores, os worker placement. Nessa loja havia também um boardgame café. Como já havíamos andado imenso foi o momento de descansar e jogar. Fizemos uma partida de Honshu, um jogo que tenho há imenso tempo na minha ludoteca para experimentar, e outra de Yantze, editado em Portugal pela Devir com o nome Lanterns, jogo que também nunca tinha experimentado. Não são bem o tipo de jogos que habitualmente levo à mesa, mas naquele contexto eram os jogos perfeitos para jogar. Curiosamente até ganhei a segunda partida ao Ricardo. Fiquei com a ideia que ele me deixou ganhar… 


Saídos da Karubi ainda passamos na loja geek ao lado, pela Norma Comics, que é imensamente grande e com produtos fascinantes no universo geek. Não pude evitar trazer uma t-shirt do Batman. Fazia-se tarde e lá fomos a pé rumo ao mar. Todo este percurso foi muito interessante, pelo ambiente urbano especial de Barcelona, e porque deu para conversar muito com o Ricardo que foi um excelente anfitrião. Falámos de mecânicas de jogos, da realidade nacional e da tendência do desenvolvimento jogos de tabuleiro nos vários países. Fiquei também a saber mais sobre o aspeto competitivo dos jogos de tabuleiro modernos, mundo que ignoro porque sempre me interessou mais a parte social e criativa do hobby. 

Enquanto esperávamos pelo avião tentei pregar uma partida ao Ricardo sobre o Carcassone, mas o rapaz safou-se bem. Acabamos por fazer um abri da caixa do Optimus, que é como quem diz o Ganz schön Clever, na edição portuguesa da Devir. Seguramente que quem estava ao lado achou tudo aquilo bastante estranho.


Aproveito para deixar então o agradecimento à Devir e ao Ricardo Gomes por esta experiência, pela simpatia e total liberdade em que foi realizada esta aventura por Barcelona.

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