segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O caso dos designers ignorantes e dos jogos irrelevantes - Opinião por Micael Sousa

Começo por avisar que este texto pode ser corrosivo e até ofensivo, mas vou tentar fazer um esforço para que não seja. Faço isso porque quero que seja uma reflexão aberta e inclusiva, sem deixar quem se sinta visado de fora, embora me pareça que ninguém o vá admitir. 

A produção de conhecimento tem sido exponencial nos últimos anos, tal como as ferramentas de apoio à sua divulgação e acesso. Isto é verdade para o conhecimento cientifico, mas não só. Em todas as áreas de atividade é enorme a velocidade com que o conhecimento se vai acumulando, aprimorando e desenvolvendo. Isto revela a nossa genialidade civilizacional, no entanto levanta outros problemas. Um deles manifesta-se pela nossa incapacidade de assimilar todo o conhecimento, mesmo que nos especializemos numa determinada área, gerando brutais desigualdade de acesso ao capital informativo e cognitivo. 

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Ora, o mundo dos jogos de tabuleiro não é diferente. Aliás, até é muito suscetível, por ser uma área criativa, a uma certa prevalência de intromissões de ignorância. Digo isto com base na minha experiência em iniciativas e eventos em que os jogos de tabuleiro são abordados. 

Primeiro, há quem chame a qualquer coisa um jogo, mesmo que não tenha um sistema de regras definido nem objetivos claros a atingir, já para não falar de outros elementos de design que definem um jogo. Nem sequer me estou a referi à qualidade do jogo, mas simplesmente a ser um pelos padrões mínimos. 

Por outro lado, surge também o efeito do designer voluntarioso, que será o modo mais simpático de lhe chamar. Podia simplesmente dizer que seria ignorante como usei no título do texto. Se na literatura é obrigatório ler muito antes de escrever algo, na produção de um jogo o requisito é exatamente o mesmo. De motar que nem estou a falar de competência criativa, mas de conhecimento do estado dar arte, porque essa é outra exigência ainda mais subjetiva. Posso estar a ser extremamente duro nesta comparação, até mesmo um elitista pedante. Mas vejamos. Quando alguém diz que cria jogos de tabuleiro sem nunca ter jogado os principais títulos de jogos mais recentes, a que nós chamos de modernos ou jogos de hobby, será possível estar a criar algo relevante e com qualidade? Se tivéssemos a capacidade criativa destes jogos regida por algum tipo de validação formativa e académica talvez problema se ultrapassasse, isto se realmente mais alguém achar que é um problema. O dito designer ignorante quanto à historia do design de jogos pode até conseguir fazer um bom jogo, mas será um mero golpe de sorte. E sorte é aquilo que se tenta evita hoje nos jogos. Aprecia-se mais o mérito que surge do design cuidado, informado e muito testado.

Há conta de designs ignorantes, surgem imensos jogos no mercado internacional com pouca qualidade, mas menos no português por haver o filtro económico. Alguns jogos felizmente nunca chegam a ver a luz do dia. Bem sei que haver que queria criar jogos, mesmo sem perceber nada do assunto, pode ser uma forma de trazer mais pessoas para o hobby, alavancar a industria pois, mais tarde ao mais cedo, acabarão por aceder a todo o conhecimento de estudos e design de jogos de tabuleiro. No entanto, o processo pode ser autodestrutivo para a industria e o hobby, pois cria imensa confusão no publico geral, passando a imagem de que qualquer pessoa cria um jogo destes, que é fácil e que se faz com leveza de curiosidade. Na verdade, muitos desses jogos de fraco design ou irrelevância fazem-se dessa maneira, mas nem de perto nem de longe esses jogos voluntariosos estão perto dos principais títulos, nem os autores de ambos têm o mesmo grau de competência.

Por isso, antes de criar um jogo há que jogar muitos jogos. Há que estudar design de jogos. Só depois, tendo uma ideia relevante, faz sentido avançar. Mesmo assim, esse conhecimento de enquadramento e uma boa ideia não garantem sucesso. 

Apesar desta recomendação não defendo minimamente que estes jogos tenham de ser para elites. Há e continuarão a ser produzidos jogos para todos os grupos, situações indivíduos, gostos e objetivos. Por vezes é na simplicidade que está a genialidade e dificuldade em fazer um jogo. Mas antes de criar há que consumir, pois mesmo nas artes plásticas, mesmo os mais disruptivos, ninguém cria sem conhecer antes, pelo menos de forma séria, quem os precedo e quem cria nesse momento. Porque para ser disruptivo, relevante e diferenciado, há que conhecer o que já existe, tal como as tendências.
Pronto. Já me podem espancar pela minha arrogância. Mas gostava realmente de saber mais opiniões sobre isto. Será exagero da minha parte? Elitismo?

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