terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Porque devemos ter mais jogos do que aqueles que conseguimos jogar - Opinião por Micael Sousa

Uma das discussões recorrentes entre o hobby de jogos de tabuleiro consiste em definir a quantidade de jogos que devemos ter. Aqui no blogue já abordei também essa questão, era inevitável. Tendo refletido sobre isso chegou o momento de deixar aqui o que fui constatando, e também muito pelas por analogias que se podem fazer com a acumulação de livros. São muitas as pessoas, tal como eu, que acumulam muitos mais jogos do que aqueles podem efetivamente jogar. Tal como nos livros, estas nossas ludotecas privadas, relacionam-se com a nossa personalidade e, apesar de poder ser desesperante não jogar tudo o que temos, isso pode ser altamente motivacional. É um paradoxo? Mas sejamos mais em profundidade essa questão, andando sempre com o paralelismo aos livros de perto.


Acumulamos muitos livros porque podem ser ferramentas de pesquisa e simbolizam a nossa pequenez perante todo o conhecimento que jamais poderemos aceder. Simboliza também a nossa aspiração a querer saber mais. Acumulamos jogos porque nos fascinam e queremos experimentar sempre as novas dinâmicas, mecânicas, sensações e mundos imaginários para onde nos transportam, quase sempre de forma coletiva. Os jogos são igualmente formas de conhecimento. Habitualmente não pesquisamos através dos jogos, mas podemos querer encontrar na nova experiência ou no jogo já conhecido, o renovar da emoção que nos proporciona, já para não falar no potencial que os jogos têm como ferramentas “sérias”. Ao acumularmos jogos temos a esperança de os jogar um dia, de viver mais tempo para cumprir esse objetivo. Pode ser desmotivante mão jogar este ou aquele jogo em particular, mas se continuarmos a preservar esses jogos sabemos que eles estarão lá à nossa espera, com a promessa de nos dar felicidade. A promessa da felicidade é um capital valiosíssimo, uma expetativa que nos faz suportar a vida. Ou não será assim? Vivemos o momento, mas queremos que os próximos sejam tão bons ou melhores. 

No meu caso acumulo jogos porque gosto de os estudar também. Será seguramente um caso mais raro de utilidade, mas deve também ser considerado. Quem gosta de algo tende a querer saber mais sobre essa área de atividade, lazer ou passatempo. Afinal talvez seja assim para tudo.

Se estiverem rodeados de jogos, especialmente dos jogos de tabuleiro dos novos designs – a que chamamos modernos – muito provavelmente também poderão estar rodeados de pessoas. Se não estão podem vir a estar, pois são apetecíveis ferramentas de sociabilização, apropriadas para a intimidade relacional e afetiva. E essas pessoas não serão umas pessoas quaisquer, serão aquelas com as quais querem privar e partilhar o vosso prazer, tal como as vossas emoções. As mesas são locais de partilha, potenciados pelo que sai da prateleira, da nossa ludoteca, o nosso tesouro neste hobby. 

Por tudo isso, e por outras coisas que eventualmente ficam ocultas neste jogo da vida, vou continuar a acumular jogos.

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