quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Razões que nos levam ter imensos jogos em casa - Opinião por Micael Sousa

Os apaixonados por jogos de tabuleiro modernos tendem a acumular imensos jogos, naquilo a que se chama “a sua coleção”. Acaba por ser uma forma de colecionismo, mas é bem mais que isso. Para já, a esmagadora maioria destes colecionadores usa os jogos. Pode não conseguir usar todos os que têm, e a frequência de utilização pode ser muito baixa, mas o objetivo, quase sempre, é usar e jogar esses jogos. 



Devem ter sido escritas já milhares de linhas sobre qual deve ser a dimensão aceitável de uma coleção ou ludoteca pessoal de jogos. Há quem diga 50, 100, 200, ou nenhum limite sequer. A partir de uma determinada quantidade fica difícil jogar tudo. Mas nem sempre se quer jogar tudo a toda a hora. No fundo isto dos jogos pode ser como os livros, em que desejamos ter mais do que alguma vez iremos ler, pois há sempre a esperança de os conseguir ler eventualmente no futuro. Ou então, os livros podem ser necessários para consulta, hoje ou amanhã. Nos jogos também é assim. Podemos querer ter só pela possibilidade de o querermos jogar no futuro ou consultar, caso precisemos por algum motivo, especialmente quando levamos o passatempo dos jogos a outros níveis de envolvimento.

No caso dos Eurogames há duas razões adicionais para os acumular. Um dos principais elementos que fascinam os jogadores dos jogos de tabuleiro de estilo europeu prende-se com o prazer de testar novas mecânicas e sistemas de jogo. Isto impele a que se tente adquirir aquele novo jogo, que tem aquela nova mecânica, ou então colecionar os clássicos porque a sua especificidade já os tornou referências na comunidade. Mesmo que algumas mecânicas de alguns jogos sejam semelhantes, o modo como são aplicadas causa interesse, já para não falar na interrelação entre mecânicas e lógica da sua aplicação aos temas dos próprios jogos. No fundo, grande parte dos Eurogames tem sucesso pela experiência de jogos proporcionada pelas suas mecânicas, contribuindo para a coerência ou não do tema aplicado. Outro fenómeno que impele o aumento das coleções pessoais é o próprio fenómeno de acumulação. Nos Eurogames somos quase sempre incentivados a processos de acumulação: peças para o motor de produção; conjuntos de cartas e peças isoladas; domínio de área no tabuleiro; mais ações para acumular ainda mais possibilidades e jogadas (mais trabalhadores, dados, etc.); dinheiro e os famosos pontos de vitória. O próprio sistema de jogo com base na acumulação induz a que queiramos acumular jogos. Para mim, que adoro Eurogames e tendo a acumular muitos jogos, isto foi uma epifania recente.

Por fim, o crescimento das ludotecas pessoais pode estar associado a outro fenómeno extrajogo, ao efeito social do próprio passatempo (Hobby). Stewart Woods (2012) realizou, com base de inquéritos aos utilizadores do Boardgamegeek, concluiu que para 60% dos inquiridos era o fenómeno social dos jogos de tabuleiro modernos que os cativavam para o passatempo. O autor reforça que os jogos nem tinham forçosamente de ser intensamente sociais nas mecânicas, mas, mesmo nos jogos menos interativos, por serem presenciais e jogados em grupo, havia sempre um efeito de construção social associada a cada jogo. Além disso há toda uma dimensão de “meta jogo” que nasce da comunidade de jogadores – este blogue é um desses efeitos, mas existe muitos outros. Pode então muito bem acontecer que aqueles jogadores que acumulam grandes quantidades de jogos sejam os jogadores que em determinado grupo ou comunidade desempenhem o papel social dos anunciantes de novidades. Aqueles que comunicarem as novidades adquirindo-as e disponibilizando-as aos outros, num fenómeno social inerente aos jogos de tabuleiro modernos. Estes jogadores assuem o papel daquele elemento chave que vai trazendo as novidades e construindo tendências. Todos os grupos de Boardgamers têm alguns elementos que desempenham estes papeis, quase sempre inconscientemente e fruto da própria dinâmica social da atividade. 

Poderá haver ainda mais razões para acumularmos mais jogos, conseguem identificar mais alguma? Se sim partilhem. Há uma tendência para acumular, talvez seja genético na nossa espécie. Por isso, fica aqui a oportunidade deste texto acumular também as vossas opiniões. 

Referências bibliográficas:
Woods, Stewart (2012). Eurogames: the design, culture and play of the modern european board games. London: McFarland & Company, Publishers.

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