sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Os Jogos de tabuleiro no formato digital fazem sentido? – Opinião por Micael Sousa

Este assunto andava na gaveta há algum tempo. Tenho pensado bastante nele. Enquanto isso, mais e mais jogos são adaptados para consolas, mas especialmente para aplicações de telemóvel. 


Vou começar pela minha história pessoal, quer serve de enquadramento e fundamentação da minha opinião sobre este assunto. Antigamente, há mais de 10 anos, eu jogava mesmo muito jogos digitais. Jogava com amigos first person shooters (FPS), Role Playing games (RPG) em modo solitário ou online. Mas delirava com jogos de estratégia, especialmente os títulos que se dedicavam ao planeamento, construção criativa, gestão e afins. De longe os meus preferidos eram as séries Civilitazation e Total War, nas vertentes do mapa político, mas também da tática militar em campo de batalha. Gastei imensas horas da minha vida nestes jogos, fazendo parte da minha formação. Sim, há que admitir isso, esses jogos desenvolviam competências que hoje consigo identificar. Não foi por acaso que me formei em engenharia, depois em história e agora estou a fazer PhD em planeamento. Nem é de estranhar a minha ligação ao exercício da política ativa, agora de uma forma menos intensa. Mas quando comecei a trabalhar, comecei a querer desligar o computador nas minhas poucas horas livres, também porque grande parte dos estudos que fiz, em simultâneo com o trabalho formal, obrigavam ao uso intensivo de computadores. 

À medida que fui conhecendo os novos jogos de tabuleiro modernos percebi que podia transferir o meu gosto por jogos e estratégia, simulações de mundos conceptuais, poderia ser transformado numa atividade social. Começou por ser uma atividade de um grupo de amigos restrito, onde se incluía a minha atual esposa. Depois foi possível usar estes jogos em algumas atividades familiares mais alargadas. Depois veio o projeto dos Boardgamers de Leria em 2014 e a coisa explodiu, passando a existir noutros níveis que não imaginava, de considerável seriedade. 

Então fará sentido andar a jogar jogos originalmente produzidos para serem analógicos, com peças físicas, em formato digital? Não! Nem pensar. Para mim não. Se quisesse jogar jogos digitais não seriam as adaptações de jogos de tabuleiro que iria jogar. Há tantos outros tão melhores e mais bem concebidos, pensados de raiz para esse formato, que me parece estranho preteri-los em função de outros que são apenas adaptações. Para mim, grande parte do interesse e a beleza dos jogos de tabuleiro consiste em serem físicos, possibilitarem momentos presenciais analógicos, cara a cara, com toda a riqueza humana que isso permite. 

Percebo perfeitamente que as editoras queiram maximizar os seus produtos com estas novas plataformas. Percebo que possa ser uma forma de divulgar os jogos de tabuleiro para aqueles que apenas jogam no formato digital. Percebo que é a oportunidade para jogar rapidamente alguns destes jogos, sem ter e reunir um grupo e andar com as caixas atrás. Percebo que possa ser uma forma de treinar estratégias e até dominar as regras de um determinado jogo. No entanto, não me parece ser minimamente interessante, porque não necessito de explorar nenhuma dessas supostas oportunidades que as adaptações digitais dos jogos.

Admito poder ser radical, mas não me fascina minimamente os jogos de tabuleiro digitais. E vocês, qual a vossa opinião?

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