sexta-feira, 9 de março de 2018

A conotação negativa da palavra Jogo – Opinião por Micael Sousa

Ao contrário de outras línguas, que separam linguisticamente o jogo de apostas de outros jogos, em português a palavra é a mesma, fazendo com que fique carregada de uma potencial conotação negativa. No caso da língua inglesa há uma outra atenuante que não se verifica na nossa língua. O termo “play” (jogar), que não é sinónimo de “gamble” (apostar ou jogar a dinheiro), pode ser utilizado como ato de praticar, exercitar ou desfrutar de alguma coisa. Por exemplo, “play music” (tocar música). Nós, quanto muito temos outras utilizações para a apalavra “jogo”, tal como “jogo de toalhas” que significa “conjunto de toalhas”. Mesmo assim a conotação negativa da palavra jogo não diminui, quanto muito pode ser ridicularizada. Em Portugal, jogo lembra de imediato casinos, apostas e afins.

Fonte da imagem: https://pixabay.com/pt/rolar-os-dados-jogo-de-dados-1502706/

Agora o texto passa para um novo nível de tédio. Eu não queria, mas tenho mesmo de referir uma peça legislativa… Este pode ser o mento da pausa para o café… O Decreto-lei n.º 422/89, de 2 de dezembro assume-se como a “Lei do Jogo”, na sua versão mais atualizada. A descrição não podia ser mais sintomática do preconceito estabelecido perante a palavra jogo. Ao lermos o sumário percebemos que a dita lei é apenas aplicável em jogos de fortuna e azar, na sua exploração económica.

Então, quando usamos o termo “Jogos de Tabuleiro” em Portugal temos de ter algum cuidado. Caso o interveniente ou intervenientes no dialogo não saibam o que são os jogos de tabuleiro modernos, que muitas vezes apelidamos de boardgames propositadamente, é muito provável que faça uma associação com os jogos de fortuna e azar que envolvem apostas monetárias. Dependendo da força deste preconceito o dialogo pode não fluir e podemos facilmente estar a passar a ideia errada, especialmente quando alguns de nós, apaixonados por este hobby, iniciamos uma incursão evangelizadora dos novos jogos. O recetor pode ficar a pensar que a nossa paixão pode ser vício do jogo a dinheiro ou que ganhamos monetariamente alguma coisa com isso.

Uma explicação mais profunda do que são os novos jogos de tabuleiro pode não ser viável, porque quem nos ouve ou lê pode não estar para aí virado. Dificilmente alguém, nos tempos que correm, tem assim tanto tempo de atenção para algo que lhe pareça de imediato desinteressante ou negativo. Podemos não ter tempo para explicar que nos bons jogos de tabuleiro o fator sorte é inexistente ou mitigado por diversos fatores, dependendo tanto quanto possível das opções e mérito dos jogadores. Pode não dar para explicar que não se joga a dinheiro, que não se fazem apostas.

A questão que aqui gostava de deixar prende-se com uma dúvida existencial. Será que em português devemos usar sem restrições a palavra “jogo” nos modernos jogos de tabuleiro?

Provavelmente no Brasil, ou até noutros países, o efeito será semelhante e a questão também se justifica.
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